domingo, 22 de janeiro de 2012

Os latinos na eleição dos EUA

Mac Margolis

Uma das decepções dos latino-americanos com o governo de Barack Obama foi o pouco caso de Washington com a região. Sim, facilitou as remessas para Cuba e a vida dos viajantes à ilha, mas o embargo econômico montado na Guerra Fria permanece. Levou três anos para visitar países da América do Sul e só agora, no crepúsculo do mandato, começa a falar em reformar as leis de imigração.

Após elevar as esperanças globais, ao anunciar uma nova era de diálogo e cooperação com os aliados e vizinhos, Obama se distraiu. Seu maior feito nas Américas foi convencer o Congresso a votar os tratados de livre comércio com Panamá e Colômbia, ambos iniciativa do governo de George W. Bush.

Agora, com sua reeleição em jogo, será diferente? Pode ser que consiga a reeleição, com a ajuda, quem sabe, das poucas luzes de seus rivais republicanos. Mas, com a popularidade e a economia em baixa, não é inconcebível uma reviravolta em Washington.

E como seria a relação com os latinos sob a batuta dos republicanos? Por mais que prometam resgatar os tempos de pax americana, os presidenciáveis republicanos falam muito pouco de política externa - e da América Latina, menos ainda.

Faltam propostas coerentes e, quando se esboça alguma, soa como um filme da Guerra Fria. Do Twitter ao corpo a corpo da campanha, os candidatos soltam o verbo contra os nefastos ditadores comunistas que ainda conspiram contra os Estados Unidos e a civilização ocidental. Alertam para supostas células terroristas no seio do continente sul-americano. Esquecem-se que os mesmos líderes nefastos (honras para Hugo Chávez) mal conseguem administrar suas riquezas ou abastecer suas populações de comida.

Em recente documento de campanha, Um Século Americano: uma Estratégia para Garantir os Interesses e Ideais Americanos Duradouros, de 44 páginas, o ex-governador Mitt Romney, favorito nas pesquisas, dedica quatro parágrafos à América Latina. Neles, escancara verbetes como terrorismo, gangues, traficantes e autoritarismo. Gasta tinta com Cuba, Venezuela, Irã e até com o Hezbollah, enquanto o Brasil não merece referência nenhuma.

O alarmismo dos conservadores nasce de um desastre de percurso. O Partido Republicano chocou-se com o Tea Party, o movimento ultraconservador empenhado em afundar o "socialismo" de Obama, e adernou perigosamente à direita.

Quem perde é o povo americano, que, em vez de propostas sérias - para criar empregos e incentivar os empreendedores -, ouve brados nacionalistas e intolerância tosca.

Disputa. Logo, as eleições primárias, que indicarão o rival de Obama na eleição de novembro, viraram um concurso de radicalismos. Os presidenciáveis tratam o país como uma flora rara e frágil e brigam entre si para mostrar quem endurecerá mais contra a invasão bárbara.

Romney propõe blindar a fronteira com México com uma muralha de 2 mil quilômetros. A ex-candidata Michelle Bachman, a queridinha do Tea Party, queria duplicá-la. Já o exótico Herman Cain causou escândalo ao propor uma cerca elétrica letal.

Cain e Bachman estão fora do páreo, mas imprimiram o tom da campanha. Até Newt Gingrich e Romney, até então com posições mais moderadas, apressam-se em dar a seus discursos uma meia volta para a direita.

É uma pena. Era uma vez os republicanos, os donos das propostas econômicas mais sensatas para as Américas. Defendiam o mercado livre e denunciavam os perdulários subsídios a produtores nacionais. Exageraram, talvez, na proposta da Alca, que os latinos entenderam como um contrato leonino (a favor dos gringos). No entanto, foi republicana a convicção de que o imigrante latino não era um parasita ou marginal, como queriam boa parte dos democratas.

Sabiam, sim, que o imigrante latino quer trabalho e não confusão, uma das razões pelas quais Estados como o Arizona, com muitos latinos, viram despencar a criminalidade.

Afinal, regularizar os imigrantes de trabalho braçal poderia aumentar a renda domiciliar dos EUA em US$ 180 bilhões por ano, segundo estudo do (bastante conservador) Instituto Catho. Assim pensavam republicanos como Ronald Reagan e John McCain. Mitt Romney também entendeu assim, até que a tempestade ideológica descarrilou sua campanha.    

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