sábado, 7 de janeiro de 2012

Mistério e absurdo

Ruy Castro

RIO DE JANEIRO - Cientistas da Universidade da Louisiana, nos EUA, divulgaram há dias o que consideram uma grande descoberta. Em 1961, pesticidas usados por fazendas perto da baía de Monterey, na Califórnia, teriam ido para o mar e produzido uma toxina que contaminou o plâncton ingerido por anchovas e lulas, abundantes na região. Estas, por sua vez, ao servirem de alimento a gaivotas e tartarugas, danificaram o cérebro das aves, deixando-as confusas e induzindo-as ao suicídio em massa.
Segundo eles, isso explicaria por que milhares de gaivotas se atiraram contra casas e carros, na costa noroeste da Califórnia, no verão daquele ano -o que, por sua vez, teria inspirado o clássico "Os Pássaros", de
Hitchcock, em 1963. E, com isso, anunciaram, estaria desvendado o "mistério" dos pássaros de Hitchcock, cujo ataque aos humanos no filme nunca teve explicação.
Nelson Rodrigues chamaria esses cientistas de "idiotas da objetividade" -aqueles para quem tudo precisa ter uma razão lógica. Uma das belezas do filme de Hitchcock, fartamente observada na época, é que os pássaros não eram uma alegoria do apocalipse, da bomba atômica ou da Terceira Guerra, mas apenas pássaros. Parecia absurdo, não? Mas nosso tempo era absurdo.
Além disso, o instinto assassino que acomete as aves do filme não se limita às gaivotas -atinge também corvos, pardais, canários e há uma referência até a algumas galinhas.
O próprio diretor sempre desautorizou qualquer interpretação física ou "metafísica" dos "Pássaros". Por que então se deixaria inspirar por causas tão rasteiras, como toxinas e pesticidas? Mas vamos supor que os idiotas da objetividade estejam certos. Nesse caso, Hitchcock perdeu a chance de fazer um filme ainda mais aterrorizante. Era só substituir as gaivotas pelas tartarugas.

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