domingo, 8 de janeiro de 2012

Com a crise, direita avança na Hungria

Constituição nacionalista entra em vigor, em meio a protestos da oposição e "silêncio" de potências ocidentais



Endividado, país se dobra ao autoritarismo político; especialistas alertam para risco de contágio na Europa

PHILIP STEPHENS
DO “FINANCIAL TIMES”


De progressista anticomunista a populista xenófobo. A trajetória de Viktor Orban, primeiro-ministro da Hungria, representa um lembrete à Europa sobre o estreito laço que une o caos econômico ao autoritarismo político.
Desde a queda do Muro de Berlim, a União Europeia tem dois grandes projetos: a unificação da moeda e o avanço da democracia no leste do continente. O euro está em sério risco agora. E Orban é uma forte indicação de que a democracia enfrenta perigo.
Nesta semana, entra em vigor na Hungria a nova Constituição proposta por Orban. Imbuída de nacionalismo, ela exala ambições de domínio unipartidário e repressão às liberdades pessoais.
A nova Carta, somada a uma série de recém-estabelecidas novas leis, confere poder incomum ao partido governista Fidesz. A autoridade dos tribunais foi limitada, o aborto e o casamento homossexual, proibidos. O número de religiões reconhecidas pelo Estado foi reduzido.
O Estado de direito húngaro fica subordinado ao governo de partido único. Os cidadãos continuam a ter direito de voto; podem protestar, e a mídia privada pode criticar Orban. Mas é uma democracia falsa. As instituições do Estado, os tribunais e a imprensa estatal estão sob controle do primeiro-ministro.
Ivan Krastev, presidente do Centro de Estratégias Liberais, de Sófia, descreve Orban como "oportunista radical". Ao transitar da esquerda para a direita política, Orban aproveitou a chance de explorar o nacionalismo húngaro em um momento de crise. Para Krastev, Orban é um autocrata que explora o medo e o preconceito.
A estratégia de isolamento, abandonando a União Europeia e o FMI (Fundo Monetário Internacional), faz parte da mesma tática nacionalista. Mas, na prática, o corte de impostos não reduziu a dívida e o deficit húngaros. Os títulos do país têm classificação de "lixo", e o país caminha para a moratória.
Nada disso torna o Fidesz menos perigoso. Os partidos de centristas pouco ganharam com a queda na popularidade de Orban. O Jobbik, um partido de extrema direita, vem conquistando apoio.
Os protestos desta semana em Budapeste, que levaram dezenas de milhares de pessoas às ruas para rejeitar a nova Constituição, representam uma virada nessa dinâmica política. Pela primeira vez, os partidos oposicionistas desunidos e organizações da sociedade civil apresentaram uma frente unificada.
Mas os manifestantes precisam de liderança interna e apoio externo. E, até o momento, a resposta do Ocidente foi discreta.
É fato que a Comissão Europeia condicionou qualquer futuro apoio financeiro à restauração da independência do banco central húngaro. A secretária de Estado americana Hillary Clinton expressou reserva quanto às ameaças às liberdades individuais.
Mas a democracia tem posição central na barganha entre a Hungria e os demais países da União Europeia. Onde estão as declarações duras de Angela Merkel, Nicolas Sarkozy e David Cameron?
A Grécia deveria ter servido como alerta para a zona do euro. A Hungria agora ilumina os riscos políticos do fracasso econômico.
A direita nacionalista está em ascensão em boa parte da Europa, dos "verdadeiros finlandeses" ao Partido da Liberdade na Holanda e à Frente Nacional francesa. Os países com tradições democráticas mais fracas estão especialmente vulneráveis. E a Europa, a esta altura, deveria estar ciente dos enormes perigos de contágio.
Tradução de PAULO MIGLIACCI

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