sábado, 10 de dezembro de 2011

Tragam de volta a dama de ferro

A Grã-Bretanha está imersa em uma crise que obrigará o governo a tomar decisões difíceis e impopulares. E é isso que Margaret Thatcher fez tão bem

RICHARD VINEN É PROFESSOR DE HISTÓRIA NO KINGS COLLEGE

Há muito que Margaret Thatcher é injuriada pela esquerda britânica, tanto que o cantor Elvis Costello certa vez fantasiou sobre sapatear sobre o túmulo dela em uma canção de 1989, Tramp the Dirt Down. Mas Thatcher fez mais do que qualquer outro primeiro-ministro britânico em tempo de paz do século 20. Correm rumores de que, quando morrer, ela receberá um funeral de chefe de Estado - honraria raramente concedida a alguém, exceto os monarcas. Há planos também para uma celebração pública.

Sua vida serviu de inspiração para um novo filme que será lançado ainda este mês, com Meryl Streep como a dama de ferro. O filme aborda as políticas divisoras de Thatcher como primeira-ministra quando ela conduziu a Grã-Bretanha em meio à estagnação econômica dos anos 80.

Naquele período, o país enfrentava uma situação de colapso financeiro e os políticos foram compelidos a fazer escolhas duras. Como líder, Thatcher era uma antagonista dura. Ela nunca foi apreciada, nem mesmo pelos que apoiavam suas políticas, e era odiada por seus opositores.

Mas seu estilo político pode ser justamente o que a Grã-Bretanha precisa neste momento. O país está imerso em uma crise econômica que obrigará o governo a tomar decisões difíceis e impopulares. E é isso que Thatcher fez tão bem. Diante de um prolongado declínio econômico e a ameaça preocupante da União Soviética, ela quebrou os sindicatos, vendeu indústrias nacionalizadas e ajudou a imbuir os capitalistas britânicos de uma confiança que eles não sentiam desde a morte da rainha Vitória.

Thatcher ficava na sua melhor forma quando as chances pareciam estar contra ela ou quando tinha inimigos claros. Em 1982, enviou um frota para combater os argentinos nas Ilhas Falklands (Malvinas para os argentinos). Entre 1984 e 85, enfrentou uma greve do Sindicato Nacional dos Mineiros que já havia sido poderoso o bastante para derrubar um governo dez anos antes.

Distanciamento. Embora Thatcher tenha se tornado um símbolo respeitado de habilidade política fora da Grã-Bretanha, internamente ela continua sendo um lembrete de divisão social. Em 2008, o então futuro chanceler William Hague tentou tranquilizar as autoridades americanas de que ele e David Cameron, que em seguida seria primeiro-ministro, eram "herdeiros de Thatcher". Quando esse comentário vazou, a oposição Trabalhista pegou a deixa, tratando de circular a citação na esperança de que ela despertasse sentimentos anti-Thatcher. E, apesar de estarem no poder atualmente, líderes conservadores ainda temem ser associados às atribulações dos anos Thatcher. Eles falam de mudar sua imagem de "partido malvado" e a necessidade de "desintoxicar a marca".

Uma razão para os britânicos se sentirem desconfortáveis com o thatcherismo é que a Grã-Bretanha foi relativamente próspera nas duas últimas décadas, em parte por conta das medidas que o governo Thatcher tomou: cortes de impostos, desregulação do setor financeiro e sindicatos mais fracos que tornaram a Grã-Bretanha um lugar mais atraente para os negócios.

A nova geração de políticos que cresceu numa era de prosperidade deixou de pensar na política em termos de escolhas duras e recursos naturais escassos; Cameron pertence a essa geração. Ele tinha apenas 12 anos quando Thatcher chegou ao poder, em 1979, e tornou-se líder do Partido Conservador em 2005, quando as tempestades econômicas atuais pareciam quase inimagináveis. Mesmo quando Cameron se tornou premiê, no ano passado, a crise financeira ainda parecia alguma coisa de curto prazo e vagamente irreal.

Mas a política britânica perdeu alguma coisa com sua adoção de consenso e otimismo pós-Thatcher. O thatcherismo era uma força mobilizadora. Ele mobilizava a direita a fazer coisas, como vender enormes corporações estatais. Mobilizou também a esquerda a desenvolver alternativas radicais: durante os anos 80, o Partido Trabalhista inclinou-se para o apoio ao desarmamento nuclear unilateral e ao aumento da intervenção do Estado na economia.

Diferentemente de hoje, os eleitores em 1983 enfrentavam opções claras. Votar nos conservadores de Thatcher era votar na privatização em larga escala. Votar nos trabalhistas era votar no socialismo. Votar nos conservadores significava manter a Grã-Bretanha na Comunidade Econômica Europeia; votar nos trabalhistas significava sua retirada.

Não há mais escolhas nítidas como essas. As falas explícitas sobre interesse de classe e desigualdade foram substituídas por um linguajar mais vago. Os grandes partidos políticos parecem notavelmente parecidos hoje. Todos são comandados por uma gente distinta na faixa dos 40 anos que mistura liberalismo social (apoio a casamentos entre pessoas do mesmo sexo e oposição à pena de morte), com aceitação do livre mercado. Aliás, os conservadores agora se veem governando com colegas estranhos, numa coalizão com o pequeno Partido Liberal Democrata. Thatcher odiava coalizões. Ela mais provavelmente teria preferido perder uma eleição a governar sem uma maioria parlamentar absoluta.

O thatcherismo refletiu um consenso de muitos membros do establishment britânico de que as coisas não poderiam continuar como estavam. É por isso que tantos apoiaram as políticas de Thatcher, mesmo não gostando dela pessoalmente.

Cameron é com certeza uma figura mais afável que Thatcher, mas capacidade de agradar pode não ser suficiente quando o povo britânico percebe que suas atribulações presentes - que requerem cortes de gastos públicos numa época de desemprego crescente e caos financeiro na Europa - são na verdade piores que a crise quando Thatcher chegou ao poder em 1979.

Nessas circunstâncias, será preciso uma dose revigorante de confronto ideológico thatcherista para reviver a política britânica. /

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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