sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Sem bangue-bangue

Ruy Castro

RIO DE JANEIRO - Assisti pela TV, em Viena, às cenas da tomada da Rocinha, do Vidigal e da Chácara do Céu. Habituados ao pau que às vezes quebra em seus quintais, os noticiários europeus se encantaram com a ocupação pacífica dos morros que, para eles, atendem coletivamente por Rocinha. Para os gringos -que, como ativistas de ONGs, turistas da pobreza ou clientes dos traficantes, sempre tiveram fascínio pelas nossas favelas-, foi uma grande notícia.
De volta ao Brasil e lendo os jornais atrasados, vejo que analistas mais severos se queixaram justamente do que cativou os estrangeiros: o fato de o tráfico ter se escafedido de véspera, deixando o caminho livre para a lei, sem um tiro. Nessa retirada estratégica, ele estaria apenas levando seus estoques, armas e homens para outros lugares, dos quais um dia sairá para retomar suas posições. Enfim, é como se, sem bangue-bangue, a devolução de enormes territórios à jurisdição da cidade não tivesse valido.
Descontado o espírito de porquice, tais críticos traem um desconhecimento básico do modo de operar das quadrilhas. Elas só se impõem quando implantadas a fundo num território. O que se dá pela posse de pontos estratégicos, como lajes, ruas sem saída e rotas de fuga, e a arregimentação permanente, via intimidação, assistencialismo ou bons salários, de apoio e mão de obra local.
Quando um bando é corrido de uma favela, isso o afasta de seus clientes fixos, funcionários leais e policiais que o protegiam, obrigando-o a se mudar para longe e disputar pontos já ocupados ou em território hostil. Quanto mais morros recuperados, menor a sua chance de reativar-se. É como desorganizar um formigueiro.
E por que fogem sem reagir? Porque nunca foram tão fortes quanto a banda podre da própria polícia nos fazia acreditar.

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