quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Que fim levou a URSS

Jovens trocam Brasil pela Rússia a fim

Brasileiros de classe média são atraídos por cursos a preços baixos; maioria vai para universidade de Kursk

Na época da URSS, cursos de universidade em Moscou receberam brasileiros ligados ao Partido Comunista

FABIANO MAISONNAVE
ENVIADO ESPECIAL A MOSCOU


O fim da União Soviética alterou radicalmente o perfil dos estudantes brasileiros na Rússia. De militantes comunistas com bolsas estatais, passou para jovens de classe média atraídos pelos baixos valores dos cursos de medicina ministrados em inglês.
O fenômeno é crescente e ocorre principalmente na Universidade Estatal Médica de Kursk (500 km de Moscou) -onde o consulado brasileiro identificou 150 estudantes.
Há ainda brasileiros em Belgorod, na fronteira com a Ucrânia, em Rostov-on-Don e em São Petersburgo, além de Moscou. São, em geral, universidades estatais que hoje dependem da mensalidade de estudantes estrangeiros para se sustentar.
No consulado em Moscou, estão registrados 170 alunos de medicina no país, mas o número é maior, pois muitos não vão à representação.
Em Kursk, o aluno brasileiro paga R$ 3.400 por semestre no curso de medicina e R$ 720 pelo alojamento.
Já em faculdades privadas de medicina de São Paulo e do Rio de Janeiro, cada semestre custa mais de R$ 22 mil. O curso de medicina nos dois países dura seis anos.
Há quase um ano em Kursk, o estudante de medicina Marcelo Ricci, 22, diz que a universidade é bem estruturada e tem professores de alto nível. As aulas são em inglês, mas aprender russo é obrigatório.
"A cidade é bem antiga, temos a impressão de voltar no tempo. Isso incomoda um pouco no início."
Mas há os que abandonam o curso. O goiano Luiz Fernando Silva,19, desistiu de estudar em Kursk por temer dificuldades na validação do diploma no Brasil, um problema recorrente para quem estuda medicina fora.
Neste ano, foram aprovados só 65 dos 677 candidatos inscritos na prova do Ministério da Educação que valida diplomas estrangeiros. Muitos médicos que se formam em outros países esperam anos para se legalizar no Brasil.
Silva disse ainda que o alojamento é "antigo e com constantes reformas e problemas estruturais básicos" e que há casos de corrupção envolvendo professores. "Às vezes, eles mesmos dizem seu preço."
Na capital russa, há brasileiros na Universidade da Amizade dos Povos, que na era soviética recebeu centenas de estudantes do Brasil ligados ao Partido Comunista, como João Prestes, filho do líder histórico de esquerda Luís Carlos Prestes.
Thiago Freire, 20, estuda medicina lá e diz que a universidade vale a pena pela alta qualidade do ensino.

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folha.com/113404

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