quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Os russos rosnaram

A Rússia de Boris Yeltsin, entre 1991 e 1999, era uma cleptocracia e uma protodemocracia. A Rússia de Vladimir Putin, presidente e depois primeiro-ministro, continua sendo uma cleptocracia, mas virou uma pseudodemocracia. Em rublos, a corrupção decerto diminuiu, pela simples razão de que já não há como reproduzir a rapina das gigantescas empresas estatais soviéticas, na transição para a economia de mercado. Foi quando se tornou de uso corrente o estrangeirismo mafiya. Pelo menos, Yeltsin pretendia sinceramente construir no país uma ordem política à ocidental, um Estado de Direito com liberdade de expressão e de organização partidária, eleições livres e competitivas.

Sob Putin, o antigo agente da KGB de quem Yeltsin se aproximou quando prefeito de Moscou e que escolheu como seu sucessor, a Rússia marchou a passos firmes para o passado. Saudoso, não propriamente da ideia de propriedade coletiva dos meios de produção, mas do estatismo centralizador e liberticida, sob a égide de um líder nacionalista com punhos de ferro - czar ou camarada, tanto faz -, Putin agiu. Acabou com a imprensa independente pela intimidação, suborno ou artifícios legais, e silenciou o dissenso em geral, recorrendo à violência bruta contra jornalistas, membros de organizações de fiscalização do governo e de entidades de defesa de direitos humanos. Muitos foram mortos pelo aparato de segurança que voltou a desfrutar do poder que detinha nos velhos tempos.


Eleições continuam a se realizar, como as de domingo último para a renovação da Duma, a Câmara Baixa russa. Mas, como bem resumiu a diplomata suíça Heidi Tagliavini, "trata-se de um jogo que não só é restrito a poucos, porque numerosas forças de oposição foram impedidas de participar, mas também que se trava em um campo inclinado de modo a favorecer o governo". Ela chefiou a missão de monitoramento da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (Osce) que Moscou recebeu a contragosto e tratou de tolher ao máximo. Ainda assim, seus integrantes puderam presenciar cenas de deslavada e rudimentar fraude, como a violação de urnas em plena votação para recheá-las de sufrágios favorecendo a lista da legenda de Putin, Rússia Unida, encabeçada pelo presidente Dmitri Medvedev.

Tendo sido ele próprio duas vezes presidente, entre 2000 e 2008, Putin trocou então de lugar com o seu primeiro-ministro Dmitri Medvedev. Assim, poderá concorrer de novo à presidência em março próximo, dessa vez para um mandato de seis anos, com o direito de disputar a reeleição em 2018, quando tiver apenas 66 anos. Para conseguir isso, ele combinou a expressão própria das democracias - o voto secreto - com a substância da escrachada manipulação eleitoral típica das tiranias. Mas, ficando mais difícil o pão de cada dia, até uma parcela dos russos que não faz muito o idolatravam resolveu dar-lhe um susto. Em um episódio sem precedentes, quando, semanas atrás, subiu a um ringue para cumprimentar o lutador vitorioso, teve de descer sob vaias.

Nas urnas foi pior. Apesar das fraudes em escala industrial, registradas não apenas pelos observadores estrangeiros, mas por inumeráveis eleitores munidos de celulares, o partido do Kremlin sofreu um duro revés. Recebeu menos de 50% dos votos, ficando com 238 cadeiras - 77 aquém das 315 que ocupava no Parlamento de 450. Com isso perdeu a maioria de dois terços para aprovar o que Putin bem entendesse. Os três partidos de oposição cresceram. Os comunistas passaram a deter 92 vagas, os social-democratas do Rússia Justa, 64, e os ultranacionalistas do absurdamente chamado Partido Liberal Democrata, 56.

Além do baque eleitoral - que o obrigará a oferecer algo novo para vencer as presidenciais de agora a três meses -, Putin foi alvo da maior manifestação de protesto já vista na sua era. Milhares de manifestantes saíram às ruas de Moscou e São Petersburgo na segunda-feira para denunciar a lambança da véspera. "Nós, russos, somos como ursos, muito pacientes", comentou uma eleitora. "Mas, quando a paciência acaba, começamos a rosnar."

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