sábado, 10 de dezembro de 2011

O túmulo beijado

Ruy Castro


RIO DE JANEIRO - De 1895 a 1900, quando morreu, Oscar Wilde passou por toda espécie de tormentos que um ser humano poderia suportar. Meteu-se num imprudente processo por homossexualismo, ao ter um caso público com o filho de um nobre, e perdeu o caso. Na Inglaterra vitoriana, era crime ser gay. O tribunal condenou-o a dois anos de trabalhos forçados na penitenciária de Reading, onde ele foi cuspido e teve a cabeça raspada.
A ideia de ver um gigante como Wilde (1,90 m) humilhado e submetido a violências e privações por guardas boçais parece quase inacreditável. Mas aconteceu e, mesmo assim, ele conseguiu até escrever na prisão: o poema "Balada do Cárcere de Reading" e a memória "De Profundis", em forma de longa carta para Bosie, o jovem amante responsável por sua desgraça.
Libertado em 1897, falido e em desgraça em Londres, Wilde partiu para o degredo em Paris. Lá, esmolou agressivamente nas ruas. Viu manchas vermelhas aparecerem em seus braços, peito e costas, seguidas por erupções em todo o corpo. Teve um abscesso purulento no ouvido (tratado com morfina e ópio) e meningite. A 30 de novembro de 1900, seu corpo literalmente explodiu -liquefez-se. Ele tinha 46 anos.
Wilde foi enterrado no cemitério do Père-Lachaise e, como sua reabilitação literária foi imediata, seu túmulo sempre atraiu romeiros. Mas, de alguns anos para cá, eles não se limitam a contemplá-lo. Beijam-no e escrevem mensagens de admiração e amor, a lápis e batom. A cada limpeza, a pedra se desgasta. Na semana passada, para conter o processo, o túmulo ganhou uma redoma de vidro.
De cuspido por alguns a beijado por milhares -o que Wilde diria disso? Na verdade, sem saber, ele já disse: "A única diferença entre um santo e um pecador é que o santo tem um passado e o pecador, um futuro".

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