domingo, 11 de dezembro de 2011

O inverno árabe

Próxima estação após Primavera Árabe - que ainda não sabemos se realmente chegou ao fim - deverá ser marcada pelo caos, estagnação e desgoverno na região

Um ano depois de o vendedor de frutas imolar-se na Tunísia, em um ato de revolta que desencadearia uma série de protestos e acabaria derrubando ditaduras instauradas décadas antes, um sombrio inverno caiu sobre o mundo árabe. As manifestações pacíficas de Bahrein, Egito, Líbia, Síria e Iêmen, que deveriam trazer a democracia, provocaram, ao contrário, derramamento de sangue e o caos, quando as forças da tirania tentaram voltar atrás no tempo.

É muito cedo ainda para saber se a Primavera Árabe acabou e nunca mais reaparecerá. Mas o Inverno Árabe indubitavelmente chegou.

A Tunísia, onde tudo começou, realizou recentemente eleições livres. Mas o país - pequeno, homogêneo do ponto de vista étnico e religioso, e próspero - mostrou-se sempre o mais provável candidato a uma transição tranquila para a democracia. Em outras nações do Oriente Médio, tropas sauditas ajudaram a orquestrar a repressão dos manifestantes no Bahrein; as forças do regime atiraram nas multidões que realizavam protestos na Síria, e o Iêmen está desmoronando na guerra civil, enquanto a Al-Qaeda se espalha nas áreas rurais. Na Líbia, comandantes militares, islâmicos, líderes tribais e pretensos democratas competem pelo poder no mundo pós-Muamar Kadafi.

E no Egito, onde a queda do presidente Hosni Mubarak mostrou-nos em fevereiro as imagens que definiram a Primavera Árabe, os militares tentam agora reter o poder.

Então, o que não deu certo - e o que significará o inverno árabe para o Oriente Médio, os Estados Unidos e o restante do mundo? Se o Oriente Médio pareceu durante muito tempo um terreno árido para a democracia, não foi porque os povos árabes não queriam votar ou ser livres - todas as pesquisas confirmam o oposto -, mas porque ditadores há muito tempo agarrados ao poder prendiam ou matavam os dissidentes, compravam seus adversários, enfraqueceram a sociedade civil, e dividiram ou intimidaram seu povo. Mas quando os ditadores caem, os métodos para preservar o poder não caem com eles.

No Egito, os militares apontaram a saída para Mubarak, mas permaneceram no poder como uma espécie de governo interino e relutam em deixá-lo. Agora, as forças de segurança voltaram a disparar sobre o povo na Praça Tahrir. No Iêmen e na Líbia, tribos e outros centros do poder muitas vezes opuseram-se à antiga ordem, mas se consideraram também rivais. Em toda a região, a polícia e o judiciário estão quebrados depois de anos de ditadura, mas não há nada que possa tomar seu lugar.

Além disso, as manifestações que levaram à queda de governantes, como Mubarak e Zine el-Abidine Ben Ali, na Tunísia, não apresentaram uma clara alternativa de governo. Embora personificassem um genuíno transbordamento da ira popular, os protestos não tiveram, em geral, um líder, nem mesmo uma organização, apenas o recurso da mídia social; não houve nenhum Congresso Nacional Africano ou uma Corazón Aquino para tomar as rédeas. Não se pode governar com multidões instantâneas.

Força islâmica. Ao mesmo tempo, as vozes da oposição mais organizadas não eram necessariamente as mais democráticas. As forças islâmicas sobressaíram-se com a Primavera Árabe. Na Tunísia, as eleições de outubro foram ganhas por um partido islâmico moderado, que ficou com 89 das 217 cadeiras do Parlamento, enquanto seu concorrente mais próximo - secular - teve apenas 29. No Marrocos, onde o rei abriu ligeiramente o sistema político, o partido islâmico também ganhou a maioria dos votos nas eleições de novembro.

Disciplinados por anos de atividades clandestinas, os grupos islâmicos gozam de apoio popular por causa dos serviços sociais que oferecem e da repressão que sofreram. Puderam desempenhar um papel na sociedade, mas sua participação política foi limitada. Agora que grupos como a Irmandade Muçulmana do Egito deverão obter melhores resultados em eleições parlamentares livres, dificilmente aceitarão as antigas barganhas com a junta militar do Egito ou com outras forças dos regimes anteriores em outros países.

Os líderes da Irmandade aprenderam a comprometer-se com o pluralismo e a tolerância. Mas não se sabe se vão se mostrar coerentes com suas promessas, uma vez no poder. Os islâmicos mais intransigentes são abertamente céticos a respeito da democracia, que consideram um instrumento para chegar ao poder e não como um modelo de governo. Os salafistas egípcios, que adotam uma versão mais puritana do Islã, também ingressaram no sistema político e estão se saindo surpreendentemente bem nas eleições; suas exigências para a islamização da sociedade são radicais e poderão levar a Irmandade a adotar um programa mais extremista quando chegar ao poder.

Estas forças democráticas frequentemente dissuadem sutilmente a democracia, mas outras forças reacionárias são mais descaradas. Em março, tropas sauditas dirigiram-se pela rodovia até o vizinho Bahrein, apoiando uma brutal repressão dos manifestantes xiitas. Em seu país e no exterior, os sauditas gastaram dezenas de bilhões para comprar a dissidência. Riad pressionou outros monarcas da Península Arábica e da Jordânia a eliminarem todo movimento revolucionário, e os sauditas ofereceram um refúgio a ditadores perseguidos, como Ben Ali da Tunísia.

A casa real saudita não só teme que seu poder comece a diminuir, como teme que as mudanças em outros países possam constituir uma abertura para seu arquirrival, o Irã, e para a Al-Qaeda na Península Arábica.

Como afirma o especialista em Oriente Médio Bruce Riedel, os sauditas proclamaram uma versão do século 21 da doutrina Brejnev, da era soviética: "Nenhuma revolução será tolerada em um reino vizinho".

Nova era. O declínio da Primavera Árabe não significa que voltaremos a um mundo de ditadores e de polícias secretas. Não só Mubarak, Ben Ali e Muamar Kadafi se foram, como também o culto à personalidade que eles alimentaram. Bashar Assad agarra-se ao poder na Síria, mas será isolado no exterior e sua força definhará no seu país. Até os regimes que experimentaram turbulências limitadas - Arábia Saudita, Jordânia e Argélia - estão ingressando numa nova era.

Onde os antigos regimes sobrevivem, enfraquecerão; onde novos regimes se instalam, serão mais fracos, pois as antigas instituições podem ser destruídas de maneira muito mais acelerada do que a rapidez da construção das novas instituições. Os líderes, antigos e novos devem jogar segundo as regras da opinião pública, e isso pode criar políticas externas incoerentes e temerárias, quando os políticos fazem promessas de campanha que aos seus países não interessa cumprir.

Evidentemente, Israel é a cartada mais fácil do jogo. Uma sondagem do Centro de Pesquisas Pew, realizada após a queda de Mubarak, concluiu que 54% dos egípcios são favoráveis à anulação do tratado de paz assinado há 32 anos com Israel e 36%, não - o que não surpreende. Na realidade, Israel poderá servir aos governos em luta como perfeito recurso diversionista.

Em maio, quando os tumultos varriam a Síria, o regime encorajou os palestinos a atravessar a fronteira síria até as Colinas do Golan, aventura que acabou com quatro mortos quando uma patrulha israelense disparou contra os palestinos que tinham aberto uma cerca na fronteira.

Mesmo que a violência que envolve Israel não se intensifique, é improvável que haja novas pressões para se chegar à paz. "A verdade nua", escreveu o ex-ministro da Defesa israelense Moshe Arens, "é que os dois tratados de paz concluídos por Israel até agora - o primeiro com o Egito e o outro com a Jordânia - foram assinados durante ditaduras: Anwar Sadat e o Rei Hussein". É difícil imaginar novos líderes, que precisam jogar segundo as regras da opinião pública israelense, sentarem à mesa com seus colegas israelenses para negociar a paz.

Antiamericanismo. O antiamericanismo provavelmente se intensificará durante o inverno árabe - e agora se tornou muito mais significativo, pois os governos querem estar afinados com os sentimentos do público. Depois da queda de Mubarak, por exemplo, apenas um em cada cinco egípcios tinha uma visão favorável dos Estados Unidos (pouco mais do que sob Mubarak), e mesmo nas nações do Oriente Médio aliadas de Washington, a maioria identifica os Estados Unidos e Israel como as duas principais ameaças à sua segurança. Uma das ironias do apoio americano à mudança democrática é que os autocratas tradicionalmente foram mais pró-americanos do que os democratas. Agora, as forças dos antigos regimes acham que Washington as abandonou no momento em que estavam mais vulneráveis, e a Jordânia e a Arábia Saudita estão enfurecidas porque os EUA repentinamente desprezaram Mubarak e contestam o compromisso americano com sua segurança.

Os EUA poderão acabar no pior dos dois mundos: desdenhados pelas forças da democracia por causa dos seus vínculos com os ditadores, e desdenhados pelos ditadores - cuja cooperação é vital para os interesses econômicos e de segurança dos EUA - por penderem para o lado dos democratas.

Mas o resultado mais perigoso do inverno árabe é a disseminação do caos e da violência. Na Síria, onde milhares de pessoas já morreram, o número de vítimas poderá aumentar à medida que crescerem as mortes por motivos sectários, e manifestantes pacíficos recorrerem às armas. No Iêmen, a renúncia de Ali Abdullah Saleh não acabou com os tumultos no país. E na Líbia, que não tem instituições fortes e está dividida por facções tribais e políticas, talvez o novo governo nunca decole.

Se a agitação se espalhar, as famílias deixarão suas casas, onerando os países vizinhos e preparando combatentes para futuros conflitos.

Aproximadamente 1 milhão de líbios buscou refúgio em países vizinhos enquanto a guerra civil ocorria este ano. Dezenas de milhares de sírios fugiram, e muitos outros partirão se a violência crescer - conforme todos os sinais indicam. Na Turquia, refugiados sírios poderão se tornar os recrutas de um futuro exército de oposição que combate o regime de Damasco.

Estes conflitos poderão se ampliar se os vizinhos intervierem, quer por temer uma maior instabilidade ou por tentar consolidar sua influência externa. A Arábia Saudita há muito interfere nos negócios do Iêmen, por exemplo, e o colapso daquele regime poderá levar os sauditas a agir diretamente contra as forças da Al-Qaeda e outra eventuais ameaças na região. Ao mesmo tempo, Turquia, Iraque, Jordânia e Israel têm consideráveis interesses na Síria e poderão armar as facções ou então envolver-se simplesmente para contrabalançar seus rivais. O passado de guerras civis e de intervenções externas do vizinho Líbano oferece um precedente negativo em termos da possibilidade de um conflito local envolver os vizinhos.

Desmoralizados e quebrados, os Estados Unidos podem fazer muito pouco para melhorar o inverno árabe. O valor e a possibilidade de ajuda econômica, por exemplo, são questionáveis. Regimes como o de Mubarak usaram a ajuda americana para se perpetuar no poder e para resistir à democracia. Embora a ajuda a partidos democráticos permita fazer um uso bem melhor do dinheiro, é difícil imaginar que o Congresso, preocupado com o orçamento, aprove uma vultosa assistência aos novos governos que inevitavelmente incluirão grupos islâmicos antiamericanos com um compromisso duvidoso com a democracia. Tampouco os verdadeiros democratas da região aplaudiriam necessariamente o apoio americano, com seu corolário previsível de interferência estrangeira.

Washington exerce a maior influência sobre os militares da região, mas financiá-los representa um dilema. Acreditava-se que os militares seriam a parte "ordenada" de uma transição ordenada para a democracia no Oriente Médio, mas como mostra a experiência do Egito, a maioria dos oficiais de alta patente não quer largar seus privilégios e o poder, e o apoio americano pode ajudá-los a mantê-los. Além do Egito, os militares sofrem a influência de tribos (Iêmen), seitas (Síria) e da lealdade à antiga ordem (em todos os países), o que os torna parte do problema, não sua solução.

Apoio. A Primavera Árabe começou sem a ajuda americana e caberá aos povos da região determinar seu futuro. Washington deveria reconhecer que a mudança está chegando e precisa apoiá-la, principalmente nos principais centros do poder como o Egito. Mas inevitavelmente tratarão de acompanhá-la, procurando solucionar as crises onde puderem ou terão de impedir que a instabilidade se espalhe. Isto poderá implicar a ajuda aos refugiados, usando a diplomacia para tentar impedir os vizinhos de intervir e intensificar um conflito, e continuar perseguindo de maneira agressiva os filiados à Al-Qaeda para que não ameacem as nações árabes ou os próprios Estados Unidos.

Há alguns meses, o presidente Barack Obama declarou em tom otimista que, em todo o mundo árabe, "os direitos que nós consideramos garantidos estão sendo aclamados com alegria por aqueles que conseguiram romper os grilhões".

Podemos esperar que a Tunísia liderará a região não apenas por ter rompido os grilhões, mas por ter criado uma democracia genuína por meio de eleições livres.

Mas também devemos reconhecer que a Primavera Árabe talvez não traga a democracia para grande parte do mundo árabe, ou mesmo para sua maioria.

Enquanto os EUA se preparam para cooperar com as novas democracias da região, também precisarão se preparar para o caos, a estagnação e o desgoverno que marcará o inverno árabe. /

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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