domingo, 18 de dezembro de 2011

O blindado e o mimeógrafo

Militarismo

A proliferação da luta contra insurgências

RICARDO BONALUME NETO



RESUMO


Negligenciados após a Guerra do Vietnã, estudos sobre contrainsurgência são reeditados e novos títulos chegam às livrarias contendo experiências de combates dos dias de hoje, como no Afeganistão e no Iraque. Com as operações militares em complexos cariocas, o tema passa a merecer atenção também no Brasil.
É difícil encontrar um equipamento militar mais especializado do que aquele blindado do Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil que participou das operações policiais e militares recentemente na favela da Rocinha e -já faz mais de um ano- nos complexos da Penha e do Alemão.
O enorme veículo camuflado de 29 toneladas e oito metros de comprimento, que esteve nas primeiras páginas dos jornais, é conhecido como Carro Lagarta Anfíbio (CLAnf). A versão atual pode transportar 28 combatentes e descende de veículos semelhantes criados na Segunda Guerra Mundial para desembarcar "marines" (fuzileiros navais norte-americanos) nas ilhas do Pacífico. Foi projetado para as areias de Iwo Jima, não para o barro das favelas cariocas.
Mas equipamentos como helicópteros e blindados passaram a ser fatores de dissuasão e proteção no novo cenário. Com os blindados, os policiais e militares podem contornar as posições dos traficantes e se colocar em posição mais adequada para o confronto.
Que tenha sido empregado em área urbana, em operações contra bandos de traficantes, é uma curiosa prova de como as Forças Armadas -e não só no Brasil- estão tendo que se adaptar a um mundo em que os conflitos convencionais são raros, mas onde a chamada guerra "contra insurgência" prolifera de diversas formas, em diversos matizes. Clássicos da literatura sobre o tema voltaram a ser reeditados, e novas obras surgem com maior frequência, inclusive no Brasil.
RECEITAS IGNORADAS
"Os melhores textos sobre contrainsurgência compartilham com os melhores manuais de sexo o fato de que seus autores geralmente têm alguma experiência pessoal do seu tema", escreveu o tenente-coronel americano John A. Nagl no prefácio de "Counterinsurgency Warfare: Theory and Practice" [Praeger Security International, 128 págs., R$ 90,80], clássico do tenente-coronel francês David Galula publicado originariamente em 1964 e agora reeditado nos EUA.
Galula cursou a academia militar de Saint Cyr e se graduou oficial em 1939, no momento certo para lutar nas tropas francesas livres do general Charles de Gaulle no norte da África, Itália e França durante a Segunda Guerra. Depois, teve experiência em primeira mão em guerras irregulares na China, Grécia, Indochina e Argélia. Esse conhecimento foi destilado em seu livro, escrito durante uma temporada de estudos na Universidade Harvard (EUA).
Galula morreu pouco depois, "perdendo a chance de observar como os militares americanos ignoraram muitas das suas receitas no Vietnã", ironiza Nagl, ele próprio autor de um livro sobre o tema que a princípio também foi ignorado, mas hoje é festejado: "Learning to Eat Soup with a Knife - Counterinsurgency Lessons from Malaya and Vietnam" [The University of Chicago Press,
250 págs., R$ 42,90]. O título foi retirado de outro clássico, "Os Sete Pilares da Sabedoria", do britânico T.E. Lawrence (1888-1935), mais conhecido como Lawrence da Arábia, pela sua participação na revolta árabe contra os turcos na Primeira Guerra. "Guerrear contra uma rebelião é confuso e lento, como tomar sopa com uma faca", resumiu Lawrence.
RETORNO
"É a população, estúpido!", pode ser um curto e grosso resumo dessas obras. "Enquanto o desafio primário da guerra convencional é concentrar maciçamente o poder de fogo no local apropriado, a chave para o sucesso na contrainsurgência é coletar inteligência maciçamente derivada da população para identificar o inimigo; o contrainsurgente está literalmente morrendo por essa informação", afirma Nagl.
"Depois de ter sido negligenciado no momento que se seguiu à Guerra do Vietnã, o estudo da contrainsurgência retornou à proeminência nos primeiros anos do século 21 como resultado das guerras no Iraque e Afeganistão", afirmam Daniel Marston e Carter Malkasian, editores de um livro que descreve as principais campanhas do gênero no último século, "Counterinsurgency in Modern Warfare" [Osprey Books, 352 págs., R$ 50,30].
Marston e Malkasian afirmam que o livro de Nagl foi um dos que trouxeram o tema de volta ao discurso militar americano. Surgiu no momento certo. Foi primeiro publicado em 2002; a mais nova edição contém um revelador prefácio em que ele comenta sua subsequente experiência no Iraque.
"Autores geralmente aprendem algo sobre seu tema e depois escrevem sobre isso. Eu tomei o enfoque contrário", diz Nagl no novo prefácio. "A experiência de lutar contra insurgentes no Iraque me fez pensar de novo sobre as visões expressas neste livro -avaliações do Exército britânico na Malásia e, especialmente, do Exército americano no Vietnã. Relendo meu trabalho agora, fiquei surpreso sobre o quanto fui capaz de entender de contrainsurgência antes de eu mesmo praticá-la e simultaneamente estarrecido com alguns dos meus erros e presunções."
A doutrina de uma força armada está em permanente evolução, de acordo com novidades tecnológicas e experiência operacional; ela costuma estar expressa em manuais. O Exército americano deixou de lado a atualização de seu manual de guerra contra insurgência depois da Guerra do Vietnã e correu para publicar um novo em 2006 sintetizando a experiência no Iraque e no Afeganistão.
O coordenador do trabalho foi o general David H. Petraeus, que comandou as tropas nos dois países asiáticos. Uma novidade importante foi o fato de o manual ser uma obra conjunta entre Exército e Corpo de Fuzileiros Navais -"The U.S. Army & Marine Corps Counterinsurgency Field Manual" [The University of Chicago Press, 452 págs., R$ 37,90]. Nagl, obviamente, foi um dos convidados a participar da produção do novo manual de campo, que pode ser baixado no site da Federation of American Scientists (bit.ly/contrain).
"Coin [contrainsurgência] é uma forma extremamente complexa de guerra. No seu núcleo, a Coin é uma luta pelo apoio da população. A proteção, o bem-estar e o apoio da população são vitais para o sucesso", prescreve o manual.
O líder guerrilheiro comunista chinês Mao Tse-tung dizia que o insurgente tem que ser como um "peixe nadando no oceano do povo". Justamente porque o objetivo principal da contrainsurgência é separar o rebelde da população na qual se esconde, algumas das receitas do novo manual são "puro zen", como comentou Nagl.
Por exemplo, "às vezes, quanto mais você protege sua força, você pode ficar menos seguro". Isto é, se a tropa fica isolada em bases fechadas, perde o contato com a população que deve proteger. Ou então, "às vezes, quanto mais força é usada, menos eficaz ela é"; ou seja, aumentam os riscos de "danos colaterais" (eufemismo para morte de civis).
"Algumas das melhores armas da contrainsurgência não disparam", diz o manual, ecoando Galula, que dizia que um mimeógrafo pode ser uma arma melhor do que uma metralhadora; ou que um soldado treinado como pediatra é mais valioso que um especialista em morteiros. Adaptando ao Rio de 2011: uma linha telefônica para a população da favela revelar anonimamente os esconderijos dos traficantes é mais importante que um blindado CLAnf em cada cruzamento.
CONFIANÇA
A ocupação dos complexos da Penha e do Alemão depois dos distúrbios promovidos por criminosos no final do ano passado lembrou não só a missão de paz da ONU no Haiti, mas também teve toques claros da doutrina de contrainsurgência americana.
Eis de novo a palavra-chave: "tínhamos era que reconquistar a confiança da população", disse em palestra deste ano o general de brigada Fernando José Lavaquial Sardenberg, que comandava a Brigada de Infantaria Paraquedista e a Força de Pacificação nos complexos cariocas. Isso envolvia "uma dosagem no uso da força, só era usada em última circunstância", afirma o general, que foi membro do Estado Maior do primeiro contingente militar brasileiro no Haiti em 2004.
O "modus operandi" no Rio também lembrou as operações de pacificação em favelas do Haiti, com o estabelecimento de Pontos Fortes em áreas dominantes e o uso intensivo de patrulhas e buscas em residências.
A passagem pelo Haiti ajudou, pois muitos dos paraquedistas eram veteranos da missão caribenha. "Quem teve a experiência não vai se assustar com disparos de armas e fogo", diz Sardenberg. "Os militares que tiveram a experiência levam vantagem nesse tipo de ação."
O coronel Antonio Manoel de Barros comandava o 26º Batalhão de Infantaria Paraquedista e a Força-Tarefa Santos Dumont no Alemão. Ele relata uma sintomática frase dita por uma moradora: "O senhor vai ter que ter paciência, não estamos acostumados com a lei".
NOVOS TEMPOS
Que os militares brasileiros estão se adaptando aos novos tempos pode ser constatado em um excelente livro escrito por um oficial do Exército, Alessandro Visacro: "Guerra Irregular - Terrorismo, Guerrilha e Movimentos de Resistência ao Longo da História" [Contexto, 384 págs., R$ 49,90]. O livro é de 2009; depois dos eventos no Rio no ano seguinte, a editora acrescentou um adesivo circular na capa com a frase: "O que está acontecendo no Rio de Janeiro".
Da bibliografia de Visacro consta, obviamente, o novo manual americano. "Aos poucos, estadistas e militares vêm se mostrando mais acessíveis a novas abordagens das questões afetas à segurança e predispostos a romperem com a intransigência doutrinária que tem caracterizado o pensamento castrense conservador", diz o autor, que comandou forças especiais e de comandos.
A última frase do livro bate na tradicional tecla: "Sem o respaldo da opinião pública e o incondicional apoio da população, não se vence o combate irregular".

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