sábado, 17 de dezembro de 2011

O abandono dos aliados iraquianos

Ameaçados por radicais em seu país, colaboradores da ocupação americana não têm respaldo para deixar o Iraque

Em de 6 de maio de 1783, Guy Carleton, o comandante britânico encarregado de encerrar a ocupação dos EUA, subiu a bordo do Perseverance e navegou pelo Rio Hudson para se encontrar com George Washington e discutir a retirada britânica. Washington ficou furioso ao saber que Carleton tinha enviado navios cheios de americanos para o Canadá, incluindo escravos libertos que haviam se colocado do lado dos britânicos durante a revolução.

A Grã-Bretanha sabia que esses legalistas eram considerados traidores e não teriam futuro nos Estados Unidos. Os britânicos cumpriram sua obrigação moral de resgatá-los enviando centenas de navios aos portos de Nova York, Charleston e Savannah. Como narrou a historiadora Maya Jasanoff, aproximadamente 30 mil foram evacuados de Nova York para o Canadá durante meses.

Duzentos e vinte e oito anos depois, o presidente Barack Obama está encerrando nossa própria guerra longa e confusa, mas não temos nenhum Guy Carleton no Iraque. Apesar de o anúncio do fim da missão militar americana no Iraque, na quinta-feira, ninguém está agindo para assegurar nossa proteção e reassentamento dos que ficaram do nosso lado.

No começo desta semana, Obama falou às tropas em Fort Bragg, Carolina do Norte, do "marco extraordinário de dar um fim à guerra no Iraque".

Foram esquecidas suas palavras da campanha em 2007, de que "intérpretes, funcionários de embaixada e fornecedores estão sendo alvos de assassinatos". Ele acrescentou: "E, no entanto, nossas portas estão fechadas. Não é assim que tratamos nossos amigos." Quatro anos depois, o governo Obama recebeu apenas uma minúscula fração de nossos aliados, apesar de haver escaneamentos de olhos, impressões digitais, detectores de mentira e cartas de soldados e diplomatas atestando por eles. Em vez disso, nós os obrigamos a se submeter a um processo bizantino que hoje demora um ano e meio ou mais.

A triste verdade é que não precisamos mais deles agora que estamos saindo, e reassentar refugiados não é um assunto vencedor em campanhas eleitorais. Durante um ano, venho pedindo a membros do governo Obama para cuidar que o ato final dessa guerra não seja manchado pela traição. Eles não escutaram, adotando uma política de pensamento positivo, na esperança de que tudo funcione da melhor maneira.

Enquanto isso, os iraquianos que nos serviram lealmente estão ameaçados. O líder extremista xiita Muqtada al-Sadr declarou que os iraquianos que ajudaram os Estados Unidos são "proscritos". Quando os britânicos saíram do Iraque, alguns anos atrás, houve uma execução pública de 17 desses proscritos - seus cadáveres largados nas ruas de Basra como advertência. Apenas algumas semanas atrás, bateram à porta de um intérprete iraquiano para o Exército dos EUA; um policial iraquiano lhe disse ameaçadoramente que ele seria decapitado em breve. Outro empregado, na base americana de Ramadi, está escondido depois de receber uma ameaça de morte da milícia de Sadr.

Não é a primeira vez que abandonamos nossos aliados. Em 1975, o presidente Gerald Ford e Henry Kissinger ignoraram os muitos vietnamitas que ajudaram tropas americanas até as semanas finais da Guerra do Vietnã. Àquela altura, era tarde demais.

A mesma história lamentável ocorreu no Laos, onde os EUA abandonaram dezenas de milhares do povo Hmong que os haviam ajudado.

Foi somente meses depois da queda de Saigon e muito sangue derramado que os EUA conduziram um enorme esforço de alívio, retirando de avião mais de 100 mil refugiados para condições seguras. Dezenas de milhares foram triados numa base em Guam, bem distante do território continental americano.

O presidente Bill Clinton usou a mesma base para salvar as vidas de quase 7 mil curdos iraquianos em 1996. Mas quem mencionar a Opção Guam para alguém em Washington, hoje em dia, receberá um olhar vazio de amnésia histórica ou ouvirá que "o 11/9 mudou tudo". E assim nossa política nas semanas finais dessa guerra é tão simples quanto vergonhosa: entregue sua papelada e espere. Se conseguir sobreviver nos próximos 18 meses, talvez o deixemos entrar.

/ TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK 

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