quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Guinada autoritária

Completados 20 anos da desintegração da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, a Rússia, principal país da antiga superpotência, não conseguiu livrar-se de seu duradouro passado autoritário e permanece distante de ser uma genuína democracia.
A recente eleição parlamentar não foi "livre nem justa", como bem observou a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton. Parte considerável da oposição foi impedida de concorrer, e observadores independentes viram-se cerceados e atacados pelo governo, que ligou sua máquina de propaganda a plena força. Protestos contra fraudes vem sendo reprimidos com violência.
Ainda assim, o partido do primeiro-ministro, Vladimir Putin, ficou com 48,5% dos votos, bem menos do que os 64% obtidos em 2007.
Parte da perda de popularidade de Putin se explica pela crise financeira, que abalou governos ao redor do planeta. O PIB cresceu 4% no ano passado, mas havia recuado quase 8% em 2009 -e voltou recentemente a desacelerar.
A interrupção dos bons resultados econômicos parece ter realçado a guinada autoritária comandada por Putin na última década. O premiê colocou ordem ao caos herdado de Boris Ieltsin, mas aos poucos apertou o torniquete repressivo e sufocou opositores e desafetos. Alguns se exilaram, outros foram presos, como o ex-magnata do petróleo Mikhail Khodorkovski.
Pesou também para a mudança no clima político o fim da encenação sobre quem governa, de fato, o país. Eleito presidente em 2000 e em 2004, para períodos de quatro anos, Putin trocou de lugar, em 2008, com o primeiro-ministro Dimitri Medvedev, seu fantoche.
Há três meses, anunciou-se que a configuração original poderá voltar. O atual primeiro-ministro será novamente candidato à Presidência, no ano que vem, agora com mandato estendido para seis anos.
Com quase toda a mídia e os partidos políticos sob controle, tudo indica que Putin vencerá o pleito, dando prosseguimento à tradição autocrática russa.
Dos 15 países que formavam a União Soviética, a Rússia é, sem dúvida, o mais importante para o equilíbrio geopolítico global. E é uma péssima notícia o fato de que seu sistema político continue contaminado pelos vícios ditatoriais e personalistas da era do socialismo.

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