sábado, 10 de dezembro de 2011

Gordon Gekko e os republicanos

Paul Krugman

Romney acumulou sua fortuna em um setor que, tudo somado, mais destrói empregos do que gera

Quase um quarto de século se passou desde o lançamento de "Wall Street -Poder e Cobiça", e o filme parece ser mais relevante que nunca. As arengas farisaicas de magnatas financeiros denunciando o presidente Barack Obama parecem variações sobre o célebre discurso de Gordon Gekko, em que ele disse que "a ganância é boa", e as queixas do "Ocupe Wall Street" soam como o que Gekko diz reservadamente: "Eu não crio nada, eu possuo".
No entanto, agora que podemos olhar em retrospecto, vemos que o filme errou um pouco no final. O filme se encerra com Gekko recebendo seu castigo merecido e a justiça sendo feita graças à diligência da Comissão de Valores Mobiliários. Na realidade, o setor financeiro ficou mais e mais poderoso, enquanto os reguladores eram castrados.
E há 45% de chances de um Gordon Gekko da vida real tornar-se o próximo candidato republicano.
É claro que não sou a primeira pessoa a ter observado a semelhança entre a carreira empresarial de Mitt Romney e as proezas fictícias do anti-herói de Oliver Stone. Na realidade, o grupo Americanos Unidos para Mudanças, apoiado pelo movimento sindical, está usando "Romney-Gekko" como base para uma campanha publicitária. Mas há uma questão em jogo aqui que é mais profunda que lançar farpas contra Romney.
A ortodoxia atual entre os republicanos reza que não devemos sequer criticar os ricos, o que dirá exigir que paguem mais impostos, porque eles são "geradores de empregos". No entanto, a verdade é que um bom número dos ricos de hoje enriqueceu não gerando empregos, mas destruindo empregos. E a história empresarial de Mitt Romney oferece uma ótima ilustração disso.
Recentemente, o "Los Angeles Times" pesquisou o histórico da Bain Capital, a firma de "private equity" (compras de participações acionárias) que Romney comandou entre 1984 e 1999. Como observa o jornal, ao longo desses anos Romney ganhou muito dinheiro para ele próprio e para seus investidores. Mas o fez de modos que, em muitos casos, prejudicaram os trabalhadores.
A Bain se especializava em aquisições alavancadas, comprando empresas com dinheiro emprestado, apostando nos lucros ou nos ativos dessas empresas. A ideia era aumentar os lucros das empresas adquiridas e depois revendê-las.
Mas como se poderiam aumentar os lucros? A imagem popular -moldada em parte por Oliver Stone- é que as aquisições eram seguidas por esforços implacáveis de redução de custos, em grande medida às expensas de trabalhadores, que ou perdiam seus empregos ou sofriam cortes em seus salários.
Assim, Romney acumulou sua fortuna em um setor que, tudo contabilizado, mais destrói empregos do que gera empregos. E, porque a destruição de empregos prejudica os trabalhadores, ao mesmo tempo em que aumenta os lucros e as rendas dos altos executivos, as firmas de aquisição alavancada vêm contribuindo para a combinação de salários estagnados e rendas muito altas dos altos executivos que vêm caracterizando os EUA desde 1980.
A verdade é que aquilo que é bom para o 1% mais rico não é necessariamente bom para o resto dos EUA.
Tradução de CLARA ALLAIN

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