domingo, 18 de dezembro de 2011

Biografia de Médici vira libelo para militares

Em tempos de Comissão da Verdade, livro de general defende legado da ditadura

ROLDÃO ARRUDA
  
Apesar do título, ninguém deve esperar encontrar no livro Médici - A Verdadeira História uma biografia bem acabada do general que governou o Brasil entre 1969 e 1974. Na verdade essa nem parece ser a preocupação principal dos editores e militares que estão promovendo sua divulgação em feiras, círculos militares, na internet.

Lançado formalmente em outubro, quando o Congresso finalizava os acordos que resultariam na Comissão Nacional da Verdade, o livro destina-se sobretudo a interferir nos debates e análises dos anos da ditadura militar que serão reavivados assim que a comissão for instalada.

A escolha do tema foi precisa. Das vítimas de violações de direitos humanos a historiadores, é unânime a ideia de que os anos mais duros da ditadura foram os de Garrastazu Médici. Em nenhum outro período se encaixa melhor a expressão anos de chumbo. Na avaliação do jornalista Elio Gaspari, autor de quatro livros sobre o regime, a tortura e o extermínio dos opositores estavam entre suas características principais.

O objetivo da obra, de apresentação modesta, edição descuidada e tom militante, é tentar demolir essa ideia. Para tanto, foca dois outros aspectos marcantes daquela era: o aumento da resistência armada e o significativo crescimento econômico. No primeiro ano de Médici, o PIB cresceu 9%. No terceiro, 11,3%. Vivia-se um clima de euforia, com a conquista a Copa do Mundo em 1970,a inauguração da Ponte Rio-Niterói e a abertura da Transamazônica, entre outros feitos do chamado milagre econômico brasileiro.

'Democrata'. Na crista desse otimismo, Médici, descrito como homem "simples, carismático, dono de invulgar simpatia e franca aceitação popular", acalentava um sonho: a redemocratização. O autor, general Agnaldo Del Nero Augusto, enfatiza isso do início ao fim. Na avaliação dele, Médici só não realizou o sonho por causa da esquerda. Em outras palavras, o grande democrata do período foi o presidente, que não esmoreceu na luta para conter os grupos que tentavam à força submeter o País a uma ditadura comunista.

Com esse ponto definido, o general se dedica ao tema que realmente lhe importa: o ataque aos grupos de resistência, os terroristas. Seus integrantes são descritos como violentos no ataque, mas pusilânimes depois de presos. Segundo Del Nero, boa parte delatava os companheiros, outros se suicidavam, alguns se arrependiam, muitos inventavam histórias de torturas. Nem a presidente Dilma é poupada: por fazer parte da organização Colina, que organizou o famoso roubo do cofre do Adhemar, o autor diz que ela poderia explicar o que houve com os dólares nunca encontrados.

Na defesa escancarada do período mais duro da ditadura, o livro enfim se revela como um ataque preventivo. Contra tudo que pode revivido na Comissão da Verdade.

Duas curiosidades finais: 1) Del Nero morreu em 2009 e a finalização do texto ficou por conta de amigos e familiares. Ele integrou a comunidade militar de informações e era inimigo de Golbery do Couto e Silva, o general considerado o mago da estratéga de reabertura democrática; 2) o livro abre com uma crônica das mais elogiosas de Nelson Rodrigues, que admirava Médici, também fanático por futebol.

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