sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Bala de prata

Ruy Castro

RIO DE JANEIRO - Começou como uma livraria on-line, com estoque invisível e sede em lugar nenhum, capaz de, em poucos dias, fornecer qualquer livro publicado em qualquer parte do globo, a preços que as livrarias físicas não poderiam praticar. Dos livros, passou aos CDs e DVDs, e, no seu crescimento descontrolado, atropelou e fechou milhares de livrarias e lojas de discos, grandes e pequenas. Estou falando da Amazon, claro.
Das artes, passou ao comércio em geral. De clipes de papel a caminhões-cegonha e iates, não há nada que não se possa comprar pela Amazon, exceto talvez pássaros silvestres e aquele ovo que se usava para cerzir meias. Tornou-se a maior loja virtual do mundo, também deixando em seu rastro os cadáveres de milhões de comerciantes.
Voltando à sua vocação inicial, a Amazon inventou o e-reader Kindle, seu exclusivo leitor de e-books, e está tentando impô-lo ao mundo. As editoras convencionais, algumas com séculos de experiência no livro impresso e responsáveis por um maravilhoso legado de conhecimento humano, aceitaram o desafio. À custa de sacrifícios (até agora, sem retorno financeiro), estão tentando se adaptar à nova ordem. E por que não? Elas continuariam editando seus livros, só que no novo formato digital. A Amazon fabricaria a traquitana que torna possível lê-los. Uma parceria perfeita.
Mas, agora, a Amazon, numa rasteira em seus crédulos parceiros, começa a contratar autores e editar, ela mesma, seus e-books. Como é dona da tecnologia, já sai levando vantagem. Não demorará a atrair autores importantes para suas cores. E quem garante que a Apple, o Google e o Facebook não farão o mesmo?
Espírito de porco, sempre tive para mim que o livro digital era um tiro no próprio ouvido, disparado pelas editoras. Agora começo a desconfiar que a bala será de prata.

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