sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A assustadora e monótona crise europeia


A zona do euro só será fortalecida no longo prazo se as economias de todos os países voltarem a crescer

TIMOTHY GARTON
ASH, THE GUARDIAN

Artigo

A Europa não será salva hoje em Bruxelas. Na melhor das hipóteses, o continente vai sobreviver para enfrentar outro trauma. Depois desses "dez dias para salvar o euro" haverá dez semanas, dez meses, dez anos. Aquilo que um observador de Bruxelas descreve como a "assustadora e monótona" crise da Europa vai se arrastar indefinidamente. Angela Merkel compara a salvação da zona do euro a uma maratona; na verdade, trata-se mais de uma corrida de obstáculos em terreno acidentado, na qual um novo salto sobre poças d'água nos aguarda depois de cada falso horizonte.

Primeiro, temos a questão imediata envolvendo a capacidade dos governos da zona do euro de reconquistar a confiança dos mercados. A dificuldade de se conseguir isso é mostrada pelo fato de que, no mesmo dia em que Merkel e Nicolas Sarkozy anunciaram que iriam (mais uma vez) salvar definitivamente a zona do euro, a Standard & Poor's pôs até a classificação AAA da Alemanha no alerta de rebaixamento. Um analista do mercado de obrigações me explica que, depois que a confiança dos investidores se vê abalada, o cálculo todo se altera. Depois disso, a questão deixa de ser o preço. A empresa X ou o país Y podem oferecer rendimentos de 5%, 6%, 7%, 8% - os investidores simplesmente não querem participar do negócio. Países da zona do euro como a Itália precisam tomar emprestadas grandes somas no início do ano que vem, e os mercados podem mais uma vez responder com uma negativa. Então, teremos outros "10 dias para salvar o euro". A seguir, temos a questão de qual será a mistura de união fiscal, intervenção mais incisiva por parte do Banco Central Europeu e garantias alemãs para a dívida de ao menos parte dos demais países da zona do euro capazes de acalmar os mercados por um período mais longo - e se o lento funcionamento das engrenagens da UE será capaz de levá-la a agir a tempo.

Os mercados de obrigações são como crocodilos; só os elefantes podem empurrá-los de volta ao rio de onde saíram. Neste caso, o elefante é um BCE soberano poderoso e determinado. Ele pode fazer aquilo que os mercados só podem sonhar em fazer durante a noite: imprimir dinheiro. É claro que esse dinheiro deve ser do tipo que os outros vão aceitar como moeda forte - sem ameaçar a "estabilidade dos preços", o anel dos Nibelungos da Alemanha contemporânea. O anel dos dias de hoje é defendido por dois gigantes de Wagner, o Bundesbank (Fasolt) e o tribunal constitucional alemão (Fafner), ambos citados num elogio especial feito por Merkel no seu discurso ao Bundestag na semana passada. Mas a verdade é que, nas circunstâncias econômicas atuais, o BCE poderia comprar mais obrigações do governo do que tem comprado e até imprimir mais dinheiro - ainda assim, não seria capaz de produzir um excesso inflacionário. No momento, é o colapso da zona do euro - e não a inflação - a ameaça que pode levar os europeus a empurrarem carrinhos de mão cheios de dinheiro, como ocorreu na Alemanha na hiperinflação da República de Weimar.

James Carville, o agressivo conselheiro do presidente Bill Clinton, fez o célebre comentário dizendo que, se pudesse voltar à Terra para uma nova vida, ele gostaria de reencarnar sob a forma do mercado de obrigações. Mas os mercados de obrigações sonham em reencarnar como James Carville. A ideia de ser um assessor de um presidente com um poder absolutamente seguro, como eram considerados até pouco tempo os Estados Unidos, consiste no grande sonho desses mercados. Pois somente um soberano como esse vai garantir um retorno livre de risco. A zona do euro não tem nada parecido com um soberano desse tipo. Sua criação é um desafio político, e não apenas econômico.

Portanto, o próximo desafio a ser superado é a questão de quais países da zona do euro estariam prontos para concordar com os passos políticos necessários para a supervisão da união fiscal. Se uma rigorosa disciplina orçamentária deve ser imposta a membros da zona do euro como Itália e Espanha, quais serão as instituições encarregadas de supervisionar e legitimar essa intromissão nas competências centrais de um Estado-nação e na vida dos seus cidadãos? Seria isso responsabilidade das instituições centrais já existentes da UE, como a Comissão Europeia, talvez submetidas a eleições direitas que lhes confiram mais legitimidade? Será que isso deveria caber a representantes dos Parlamentos nacionais, reunidos numa espécie de Senado? França e Alemanha partiram de opiniões muito divergentes quanto a essa questão. Os dois países resolveram suas diferenças esta semana, mas será que a calda resultante será suficiente para satisfazer até mesmo suas próprias populações e cenários políticos? E quanto aos irlandeses, italianos, espanhóis e gregos? Por trás da árida linguagem da "alteração no tratado", seja por parte de todos os 27 países membros ou apenas dos 17 membros atuais da zona do euro, jazem fundamentos como o "nenhuma taxação sem representação".

O certo é que nem todos estarão nessa zona do euro mais unida. Sarkozy e outros falam agora numa Europa de duas marchas. Mas o que teremos não será uma Europa de duas marchas, e sim uma Europa de múltiplas marchas que seguirá em várias direções. No discurso que fez na semana passada, Sarkozy disse: "Com França e Alemanha unidas, é toda a Europa que se vê unida e fortalecida. Com a desunião entre França e Alemanha, a Europa toda se vê desunida e enfraquecida". A segunda afirmação é verdadeira; a primeira, obviamente falsa. Aquilo que o Der Spiegel chama provocativamente de "Diktat franco-alemão" não garante, em si, uma maior unidade entre os europeus. E "geometria variável" é apenas um termo bacana. A não ser que os 27 países membros possam descobrir uma maneira de encaixar uma entidade como os EUA e a Europa, ou Pequena Europa, nas estruturas existentes da União Europeia, o todo será enfraquecido pelo fortalecimento de algumas de suas partes.

Isso também nos leva de volta à economia. A zona do euro só será fortalecida no longo prazo se as suas economias voltarem a crescer. E se as políticas antikeynesianas exigidas pela Alemanha significarem que partes importantes da zona do euro não conseguirão retomar o crescimento? E se os integrantes mais fracos, ao sul, vivenciarem anos dolorosos enquanto os países do norte, como Alemanha, Áustria e Finlândia, recuperam a força? E se a periferia da UE excluída do euro, como a Grã-Bretanha, crescer mais rápido do que a zona do euro? As assimetrias no desempenho econômico vão exacerbar os desgastes políticos.

Por trás de tudo isto, temos a questão da redução do poder e da importância da posição ocupada pela Europa no mundo. Dez anos atrás, eram numerosos os textos otimistas falando numa Europa que "lideraria o século 21". Os chineses viam a UE como um polo de um mundo multipolar. Outro dia, conversei com um integrante importante da escola central do Partido Comunista chinês. Como eles viam a UE agora? "Lidamos individualmente com os países principais", Em outras palavras: a UE de hoje é como um convite aos chineses, pedindo-lhes que empreguem a estratégia do dividir para governar.

A partir de amanhã, em cada reunião de cúpula europeia deve estar presente uma voz simbólica representando a China. Antes de os líderes europeus começarem a trabalhar, essa figura simbólica deve transmitir a eles a impressão chinesa da posição europeia, com aquela incisividade da qual os chineses são capazes. Se isso não for capaz de levar esses líderes a concentrarem seus esforços, não sei o que mais poderá fazê-los. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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