quinta-feira, 3 de novembro de 2011

União Europeia ameaça sufocar a Grécia

Premiê Papandreou, porém, ignora pressão contra consulta popular e diz que pode antecipá-la para 4 ou 5 de dezembro

Em entrevista após reunião, Sarkozy diz que pergunta deve ser sobre os gregos ficarem ou não na zona do euro

Michel Euler/Associated Press
Premiê grego, George Papandreou, chega a Cannes para a reunião do G20, onde foi pressionado a desistir do plebiscito

CLÓVIS ROSSI
ENVIADO ESPECIAL A CANNES

O premiê grego, George Papandreou, anunciou ontem a seus parceiros europeus que poderá antecipar para o dia 4 ou 5 de dezembro o plebiscito que estava previsto inicialmente para janeiro.
Foi após ouvir a informação de que nem a União Europeia nem o Fundo Monetário Internacional liberarão os € 8 bilhões finais do primeiro pacote de socorro enquanto a Grécia não se comprometer a aceitar o conjunto de medidas decididas na cúpula europeia do dia 27 passado.
Sem esses recursos, a Grécia não poderá pagar suas contas, inclusive a dívida -o que levará o país ao colapso.
As duas informações foram divulgadas em entrevista coletiva do presidente francês, Nicolas Sarkozy, e da chanceler alemã, Angela Merkel, já no fim da noite em Cannes, após dura reunião entre eles, Papandreou (pronuncia-se "papandrêu"), a chefe do FMI, Christine Lagarde, e integrantes da cúpula da UE.
Para Sarkozy, o plebiscito deve dizer "se a Grécia quer ou não permanecer na eurozona" (os 17 países que adotam o euro). Ou seja, parece não haver a hipótese de que a pergunta seja sobre aceitar ou rejeitar o pacote de 27 de outubro, que prevê, entre outros pontos, novo programa de ajuda à Grécia, corte de 50% na dívida do país e mais medidas de austeridade.
"Nossos amigos gregos têm de decidir se querem continuar a jornada conosco", disse Sarkozy. Merkel, por sua vez, afirmou que é preferível estabilizar o euro com a Grécia a fazer isso sem ela -mas a prioridade é a moeda.
Para o presidente francês, a convocação do plebiscito tem "toda a legitimidade", mas "a Europa não pode ficar na incerteza e quer uma resposta o mais cedo possível".
É justamente para obter a resposta o mais cedo possível que França e Alemanha informaram Papandreou de que não será liberado o dinheiro, que é a linha da vida para a economia grega. Como dezembro é o prazo para que a Grécia fique sem recursos para operar até o pagamento de salários dos servidores, o premiê se viu forçado a prometer antecipar o plebiscito.
Há duas versões circulando sobre a pergunta do plebiscito: uma diz que ele terá que decidir, tal como sugerido por Sarkozy, entre ficar ou não no euro. A outra é a de que a pergunta seria sobre a aceitação do pacote, hipótese que parece ter sido vetada durante a reunião de ontem.
A diferença é importante: pesquisa recente mostra que 60% dos gregos rejeitam o pacote de ajuda amarrado a um duro ajuste, mas 72% querem que o país fique no euro.
Se a pergunta for essa e os eleitores confirmarem a disposição na urna, Papandreou ganha o plebiscito e a legitimidade de que hoje carece para implementar as duras medidas de ajuste, que têm causado retração, alta do desemprego e até dos suicídios.
O imbróglio grego eclipsou quase totalmente a cúpula do G20 propriamente dito. Os parceiros da Europa queriam certificar-se de que o plano da cúpula da semana passada era de fato suficiente para conter o eventual contágio do "default" parcial da Grécia.
Agora que o plano está suspenso no ar, à espera do plebiscito grego, criou-se o que um negociador técnico chamou modestamente de "obstáculo importante" para a redação do comunicado final, a ser emitido amanhã.
Para o jornal grego "Eleftherotypia", é bem mais do que isso: Papandreou foi definido como "Lorde do Caos". Os líderes europeus mostraram ontem estar de acordo.

Com agências de notícias 

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