quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Drama grego

Editoriais

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A inoportuna iniciativa grega de convocar um referendo sobre o pacote de ajuda causa turbulência e pode agravar ainda mais a crise europeia

É potencialmente explosiva a decisão do primeiro-ministro grego, George Papandreou, de convocar um referendo sobre o pacote de socorro ao país aprovado pelas principais lideranças da zona do euro.
O plano, embora não resolva de forma imediata e definitiva a insolvência do país, o que seria impossível, pode pelo menos salvá-lo de um calote desordenado, com graves consequências para a economia europeia e mundial.
Essa perspectiva, auspiciosa às vésperas da reunião do G20, que ocorre hoje e amanhã em Cannes, foi abalada pelo inesperado anúncio, responsável por novas turbulências nos mercados financeiros.
Embora não se questione o direito soberano do governo grego de promover a consulta -que poderá acontecer antes do final do ano-, a presumível rejeição da proposta desde já vai dissipando as expectativas de controle da situação.
Depois de meses de convulsão social, e de uma pesquisa mostrar que 60% dos gregos são contra as medidas, é difícil crer na aprovação do pacote -que prevê corte de ao menos 100 mil empregos públicos, privatizações e perda de 50% do valor da dívida do governo.
Especialistas estimam que o resultado desse ajuste, que no futuro poderá tornar a economia grega mais competitiva, será uma recessão ao menos até 2013 e taxa de desemprego acima de 20%.
A decisão de convocar o referendo parece ser, antes de tudo, um golpe político, uma tentativa do primeiro-ministro Papandreou de se fortalecer. Ele conta com uma maioria mínima, e volátil, de 152 dos 300 parlamentares gregos e enfrenta insatisfações dentro de seu próprio partido, o Pasok (Partido Socialista Pan-Helênico).
Parte de seus correligionários considera má a condução das medidas de combate à crise -e essa opinião apenas se agravou com a atabalhoada iniciativa da consulta popular.
Está prevista para amanhã uma votação do Parlamento para reafirmar ou não a confiança no premiê. Caso Papandreou não sobreviva, o governo grego será obrigado a antecipar as eleições, que só deveriam ocorrer em 2013. O referendo, assim, iria para as calendas.
Se vencer a votação de amanhã -e levar adiante a ideia, que ainda precisa do aval do presidente-, o premiê grego poderá levar a crise a uma nova e perigosa fase.
A rejeição ao pacote provocaria a suspensão do empréstimo de € 110 bilhões, que tem permitido à Grécia pagar suas contas e dívidas. A mera ideia do referendo, aliás, já levou à suspensão do repasse da próxima parcela do socorro. O inevitável calote imporia perdas enormes a bancos, corporações e, consequentemente, à população. Nesse quadro, seria muito difícil o país prosseguir na zona do euro.
O desfecho do drama grego terá consequências profundas para a economia mundial -e o Brasil não sairia ileso do pior cenário.

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