domingo, 6 de novembro de 2011

Brasil cedeu a pressões e não deu asilo a político paraguaio

Deputado era suspeito de ser 'autor intelectual' de morte de vice-presidente

Concessão de asilo reforça imagem de país em que instituições não funcionam, alegavam políticos paraguaios

RUBENS VALENTE
FERNANDA ODILLA

DE BRASÍLIA

Telegramas confidenciais do Itamaraty revelam que o Brasil cedeu a pressões do Paraguai e quebrou sua tradição diplomática ao recusar asilo a um deputado perseguido pelo governo que sucedeu o presidente deposto Raúl Cubas Grau, em 1999.
O projeto Folha Transparência divulga a partir de hoje, em seu site na internet (transparencia.folha.com.br), a íntegra de 187 telegramas confidenciais produzidos em 1997 e 1999 sobre as relações Brasil-Paraguai.
Em março de 1999, o Brasil deu asilo a Cubas Grau no mesmo dia em que ele deixou o governo, acossado pela oposição após o assassinato a tiros de seu vice, Luis Argaña, então um crítico de Cubas e de seu protegido, o general Lino Oviedo.
O crime desencadeou protestos sangrentos em Assunção, em que sete estudantes antioviedistas foram mortos.
Dias depois, o então deputado Conrado Pappalardo, aliado de Oviedo, passou a ser procurado pela Justiça paraguaia como um dos supostos "autores intelectuais" do assassinato de Argaña.
Ele fugiu para o Brasil e ficou escondido por anos -depois foi absolvido da acusação e voltou ao Paraguai.
A recusa do asilo contrariava a tradição brasileira. Nos anos 1980, o país acolhera até mesmo o ex-ditador paraguaio Alfredo Stroessner, de quem Pappalardo foi aliado.
Pappalardo entregou à embaixada brasileira carta em que se dizia vítima de perseguição política. Os telegramas revelam que a negativa do Brasil ocorreu após pressões do Congresso paraguaio.
O presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, Efrain Alegre, e mais dois parlamentares procuraram o então embaixador brasileiro em Assunção, Bernardo Pericás, para dizer que a eventual concessão de novos pedidos de asilo "reforçaria no exterior a imagem falsa de um país em que não funcionam as instituições".
Outro deputado, Blas Riquelme, disse ser "preocupante a imagem de impunidade projetada, interna e externamente, pelo Paraguai".
O embaixador respondeu que o Brasil examinaria o pedido de Pappalardo "com atenção e consciência das implicações mencionadas pelo presidente da Comissão de Relações Exteriores".
Em maio daquele ano, Miguel Saguier, chanceler de Luis Gonzalez Macchi, novo presidente paraguaio, foi recebido em Brasília por Fernando Henrique Cardoso.
Saguier "mostrou satisfação pela forma com que o Brasil tratou o caso Pappalardo", segundo um telegrama confidencial despachado de Brasília para Assunção.
Ele disse que "a repetição de casos de concessão de asilo depõe contra o Paraguai".

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