quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Berlusconi aliou ações liberais à imagem de um oportunista

ANÁLISE

JOÃO BATISTA NATALI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Pode parecer estranho que a Itália de Silvio Berlusconi, 75, tenha sido a mesma em que há quatro décadas dialogavam homens com o peso doutrinário e moral de um comunista como Enrico Berlinguer (1922-1984) ou de um democrata cristão como Aldo Moro (1916-1978).
Não se argumente que ele foi na política italiana um mero acidente de percurso. Berlusconi presidiu três gabinetes após eleições democraticamente disputadas, em 1994, 2001 e 2008.
Nem por isso deixou de ser um homem "inapropriado" para governar, segundo uma capa comentadíssima, há dez anos, da revista britânica "The Economist".
O fato é que ele representou a renovação, em sentido controverso, de um país estratificado em seus mecanismos de alternância de poder durante o longo pós-Guerra.
Berlusconi trouxe para a política a imagem do empresário bem-sucedido que partiu da estaca zero, como vendedor de aspiradores de pó ou artista a bordo de navios de cruzeiro. Enriqueceu com empreendimentos imobiliários, virou magnata da edição, da mídia e do futebol.
Na cabeça de seus partidários, essa múltipla competência empresarial daria bons resultados na gestão complexa da coisa pública. Não foi bem o que aconteceu.
Ao longo dos três períodos como presidente do Conselho de Ministros -só perdeu em longevidade no último século para Giovanni Giolitti (1842-1928) e Benito Mussolini (1883-1945)-, Silvio Berlusconi associou políticas liberais que davam mais ou menos certo (educação, finanças, saúde, seguridade social) com a imagem pessoal de um oportunista, encrencado na Justiça e que manobrava por meio de projetos de lei para postergar ou inviabilizar condenações.
Tem ainda quatro processos por crimes econômicos em andamento.
É também possível que seus eleitores aplaudissem, como no show business, seus périplos amorosos e as festas com prostitutas que levaram à popularização da grotesca expressão "bunga bunga".
Reunido no último domingo com seus mais próximos confidentes, Berlusconi, que voltava do encontro do G20, em Nice, sentiu que a Itália seria a bola da vez na crise das dívidas europeias.
Segundo o "Le Monde", Roberto Maroni, ministro do Interior, disse a ele: "Acabou, Silvio, agora é inútil se agarrar [ao poder]."

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