domingo, 6 de novembro de 2011

AMANTES TROGLODITAS

Pesquisa usa genética para revelar novos indícios de cruzamentos entre humanos modernos e espécies arcaicas, como os denisovanos e os neandertais

RICARDO BONALUME NETO

DE SÃO PAULO

Dois estudos genéticos jogaram luz na pré-história das migrações e dos acasalamentos humanos, mostrando que esses movimentos populacionais foram mais complexos do que se imaginava.
Descobriu-se agora que os ancestrais dos povos do leste da Ásia fizeram sexo com uma antiga população arcaica da Sibéria; e que, dezenas de milhares de anos depois, durante a passagem do estilo de vida caçador-coletor para o de agricultores, eram principalmente os homens que migravam na Europa.
O cruzamento entre subespécies ou espécies diferentes de ancestrais humanos sempre foi polêmico. Mas tem sido criado um consenso de que deve ter havido dois desses "eventos" no passado.
O homem moderno surgiu na África e se disseminou pelo resto do planeta. Ao chegar à Europa, teria feito sexo com uma espécie arcaica, o homem de Neandertal.
O outro cruzamento seria entre os humanos modernos e aqueles semelhantes aos arcaicos encontrados na caverna de Denisova, na Sibéria (Rússia), e teria dado origem a populações na Oceania.
Dois pesquisadores na Suécia, Pontus Skoglund e Mattias Jakobsson, da Universidade Uppsala, compararam o material genético de mais de 1.500 seres humanos modernos com o genoma de um neandertal e um denisovano. O artigo com os resultados está na última edição da revista científica "PNAS".
Eles descobriram traços do material genético dos homens denisovanos também no genoma dos habitantes atuais do leste asiático.
De acordo com Jakobsson, podemos detectar sinais de ancestralidade arcaica nos seres humanos modernos porque a população humana anatomicamente moderna era "apenas" dez vezes maior do que a dos arcaicos com quem eles cruzaram.
"Eu não tenho uma resposta sobre o tamanho da população denisovana, mas para a população neandertal na Europa, Mellars e French estimaram que a população humana moderna era dez vezes maior", diz o pesquisador.

MAIORIA
Paul Mellars e Jennifer French, da Universidade Cambridge, publicaram artigo em julho na "Science" com estimativas das populações humanas modernas e de Neandertal na França.
Eles concluíram que entre 55.000 e 35.000 anos atrás, uma "invasão" dos modernos levou à substituição dos europeus arcaicos.
"Esses dados mostram que apenas a supremacia numérica deve ter sido um poderoso fator, se não decisivo, na competição demográfica e territorial entre humanos modernos e neandertais", afirmou a dupla de cientistas.
Outro momento decisivo na pré-história humana foi a "transição do Neolítico", com a passagem do estilo de vida caçador-coletor para a agricultura. Outra análise de DNA antigo concluiu que eram grupos masculinos que migravam, segundo dados de sítio arqueológico na Espanha de 7.000 anos de idade.
A pesquisa de Marie Lacan, da Universidade de Estrasburgo, França, está publicada na mesma edição da "PNAS". O trabalho identificou sete indivíduos na caverna de Avellaner, nordeste da Espanha, seis dos quais eram homens. Cinco deles parecem pertencer à mesma linhagem patrilinear.

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