domingo, 2 de outubro de 2011

Tráfico encurrala candidatos no México

Debate político está focado na estratégia do presidente Felipe Calderón para combater os cartéis de drogas no país

 
Conflitos já causaram mais de 40 mil mortes; jornalistas e usuários de redes sociais são novos alvos da violência


Ronaldo Schemidt - 26.ago.2011/France Presse
Manifestantes acendem velas no palácio do governo do México em homenagem aos 52 mortos em incêndio de cassino

FLÁVIA MARREIRO
DE CARACAS
SYLVIA COLOMBO
DE BUENOS AIRES

A guerra contra o narcotráfico, declarada pelo presidente Felipe Calderón, do PAN (Partido da Ação Nacional), quando assumiu o poder no México em 2006, encurrala os candidatos à sua sucessão.
A menos de um ano para a votação, em julho de 2012, os pré-candidatos medem palavras para falar do tema.
Sobram críticas à estratégia do governo, mas há desalento pela falta de alternativas -inclusive no campo opositor- e temor de que o crime organizado influencie a campanha.
O conflito já causou até hoje mais de 40 mil mortes.
No caso da mídia, os novos alvos são as redes sociais, revertidas em refúgio para jornalistas e cidadãos num ambiente de escalada da autocensura na imprensa.
No fim de semana passado, uma jornalista que escrevia sob pseudônimo para um site de Nuevo Laredo, na fronteira com os EUA, foi decapitada por narcotraficantes.
Eles deixaram um aviso de que o crime era um castigo por falar demais na rede. Foi a quarta vítima do gênero na cidade em um mês.
Em agosto, um ataque a um cassino em Monterrey deixou 52 mortos. O atentado foi atribuído ao cartel mexicano Zetas.
Calderón, na reta final de seu mandato, promete manter a luta contra os cartéis.
Porém, no momento em que a estratégia se reflete em mal-estar e paranoia, a bandeira governista é um fardo pesado de carregar para os aspirantes à Presidência do governista PAN (conservador). Mas se torna uma vantagem para os opositores do PRI (Partido da Revolução Institucional, de centro).
A corrida eleitoral já começou, com a desincompatibilização dos pré-candidatos dos seus cargos. Pelo PAN tentam ser candidatos o ex-ministro da Fazenda Ernesto Cordero e a ex-chefe do partido na Câmara Josefina Vázquez Mota, entre outros.
Já o PRI -que perdeu a Presidência para o PAN em 2000 após 70 anos de governo- tem até agora o nome mais forte da disputa, o midiático Enrique Peña Nieto, ex-governador do Estado do México.
No entanto, nem o priista nem os pré-candidatos esquerdistas do fragilizado PRD (Partido da Revolução Democrática) sinalizam um recuo total das ações de Calderón. Peña Nieto, por exemplo, diz que Calderón improvisou a guerra às drogas, mas evita se pronunciar sobre um de seus pilares: o uso das Forças Armadas contra o crime.
"Na situação atual, há margem de manobra para corrigir a estratégia de Calderón, mas não muito ampla", diz Eduardo Guerrero, especialista em segurança.
O escritor Jorge Volpi concorda que o debate eleitoral vai estar circunscrito à "guerra ao narcotráfico" de Calderón. "O PRI tentará sugerir de maneira não muito clara que em sua época as coisas estavam mais sob controle."
Guerrero diz que a mensagem pode se voltar contra o PRI se os adversários conseguirem colar a ideia de que a tranquilidade era fruto do pagamento por conivência com o crime e acomodação.

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