domingo, 9 de outubro de 2011

Steve Jobs era porto seguro para os EUA

RONALDO LEMOS



"Morre o último americano que sabia o que estava fazendo", estampou jornal satírico; Obama falava da nação como "país da Apple"


Dizem que é preciso uma cidade para formar uma criança. No caso de Steve Jobs (1955-2011), foi preciso um país. Jobs navegou como ninguém na diversidade americana, extraindo o melhor das suas universidades, da sua periferia criativa, culturas e contraculturas.
Para se ter uma ideia de como a sua morte foi recebida nos Estados Unidos, o jornal satírico "The Onion" estampou: "Morre o último americano que sabia o que estava fazendo". Não é por acaso que Obama se referia a ele em momentos de crise, dizendo: "Somos o país da Apple".
Jobs foi pioneiro em transformar inovação em produto de consumo. Trouxe o computador para dentro de casa, mostrando que o futuro do desenvolvimento tecnológico dependeria do interesse do consumidor comum.
E Jobs era mestre em cultivar esse interesse. Suas apresentações, cuidadosamente ensaiadas para parecerem casuais, criavam um "campo de distorção da realidade", expressão cunhada em 1981 para descrever o imenso carisma do fundador da Apple. Carisma que utilizava para provar que "o povo sabe o que quer, mas o povo também quer o que não sabe", como na letra de Gilberto Gil. No dia seguinte ao lançamento de um produto inédito, filas se formavam em todo o mundo.
Jobs começou desmontando computadores para entender como funcionavam. Chegou a vender um aparelho que permitia fazer ligações telefônicas gratuitas. O perfeccionismo logo falou mais alto, e ele então optou pelo controle total sobre os seus produtos (que hoje sequer têm parafusos). Quando se perguntava aos funcionários da Apple qual era a principal característica de Jobs, muitos diziam: o bom gosto. Qualidade que o tornava um crítico feroz de ideias dissonantes, contrastando com a figura simpática que apresentava publicamente.
Steve Jobs também tropeçou. Falhou no Apple III, na primeira geração da empresa. Ou no Ping, investida recente em redes sociais. Nada disso o impediu de ser um gênio "schumpeteriano". Aplicava sua capacidade de destruição criativa na reorganização de mercados. Fez isso com a indústria da música, para revés das gravadoras. Ou com a indústria do celular. Com o iPad, estava a caminho de fazer o mesmo com a imprensa e o audiovisual.
Sua partida acontece em um momento delicado. Há novos competidores de peso, como o Kindle Fire, cuja força é justamente não copiar o produto da Apple. E há o Android do Google, que avança. Ambos apostam em sistemas abertos, contrastando com o modelo fechado da Apple. O campo gravitacional de Jobs permitiu à empresa exercer o sonho de controle total.
Resta ver para onde irá o pêndulo agora.
Outro mistério é a relação de Jobs com a filantropia. Na contramão de bilionários como Bill Gates, Warren Buffet ou mesmo Mark Zuckerberg, ele foi criticado por não possuir atividade filantrópica conhecida. Pelo contrário: descontinuou o braço filantrópico da Apple quando voltou à empresa, em 1997. Há quem diga que os planos para sua fortuna de US$ 8 bilhões serão revelados agora. Mas trata-se de uma pergunta ainda sem resposta. De qualquer forma, o mundo fica bem menos interessante sem Steve Jobs.
RONALDO LEMOS, colunista da Folha, é professor visitante na Universidade Princeton (EUA).

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