domingo, 9 de outubro de 2011

Sociólogo vê reflexo de "era da exclusão" em movimentos

Michael Burawoy afirma que atos como Ocupe Wall Street são promovidos "mais pelos excluídos que os explorados"


Professor em Berkeley, ele avalia que "canais políticos normais não conseguem lidar" com esse tipo de fenômeno


ELEONORA DE LUCENA
DE SÃO PAULO

Movimentos que aparecem e desaparecem, fluidos e persistentes. Fragmentados, gravitam em torno dos excluídos do capitalismo. Assim Michael Burawoy, presidente da Associação Internacional de Sociologia, explica os movimentos sociais que pipocam no mundo e o recente Ocupe Wall Street.
Para o professor de sociologia na Universidade da Califórnia, em Berkeley, que já trabalhou como operário para fazer suas pesquisas, a atual crise econômica vai ajudar o capitalismo a se reestruturar. E prevê que a catástrofe ambiental "vai forçar uma resposta em nível global".


Folha - Como descreve o capitalismo hoje?
Michael Burawoy -
É a terceira onda de mercadilização. A primeira foi no século 19, a segunda em meados do século 20, e agora a terceira onda. A mudança começou nos anos 1970. Chamam de neoliberalismo. Há hoje uma crise de fundo?
Não chamaria assim. Crises permitem o capitalismo reestruturar a si mesmo.
O capitalismo financeiro ficou ainda mais forte, fora do controle dos Estados. A grande crise do capitalismo virá com a catástrofe ambiental.
Como?
Haverá desastres cada vez mais frequentes e profundos, um momento de virada, uma espécie de barbárie ou alguma forma de regulação global dos mercados. Regulação de mercados pode ter um caráter fascista ou comunista ou socialdemocrata.
Outra questão é se teremos recursos para conter o capitalismo. Não sei quando isso acontecerá, mas essa será a crise de fundo do capitalismo: destruir as condições de sua própria existência, destruindo o ambiente.
Como o sr. avalia os movimentos sociais em várias partes do mundo e o Ocupe Wall Street?
São similares. Estive em Barcelona e vi os indignados. Resistem a se engajar no sistema político. Canais políticos normais não conseguem lidar com isso. Esses movimentos refletem uma era de exclusão. Seus participantes são mais os excluídos que os explorados. O centro de gravidade desses movimentos são desempregados, estudantes semi-empregados, juventude desempregada, membros precários da classe média.
É um conglomerado de grupos diferentes vivendo um estado de precariedade porque foram excluídos da chance de ter uma posição estável de exploração. Hoje a exploração, o dinheiro seguro é privilégio para poucos.
Qual o futuro dos movimentos se sua organização é confusa?
Não são movimentos fortes, mas são persistentes. São oposições radicais. É uma das reações à terceira onda capitalista. Há muitas outras, diferentes. Há o Tea Party, que é outra forma de reação.
Na Europa há um avanço da direita. Na América Latina há interessantes experiências de participação em democracias locais. Há a resposta islâmica. Nenhuma tem coerência para se espalhar pelo mundo. São fragmentadas.
Vão continuar, algumas de forma regressiva, ou progressista, ou democrática. A crise ambiental vai forçar uma resposta em nível global.
Qual a importância dos movimentos?
O significativo é o caráter simbólico de crítica ao capitalismo. São poucos milhares pelo país, mas têm a capacidade de atrair atenção usando técnicas inovadoras.
Recusam fazer compromissos e concessões. A pergunta é se eles conseguiram transformar essa política simbólica em um movimento mais profundo. Vivemos num período do capitalismo em que o bem-estar está fora de controle e o Estado frustra.
O movimento sindical está numa posição mais defensiva, pois quer defender empregos, e não atacar o capitalismo de fato.
Ocupe Wall Street pode exercer influência no partido democrata, assim como o Tea Party no partido republicano?
Os democratas devem ser revitalizados, mas isso não está na pauta do movimento. É uma política formal com a qual não vão se engajar.
O movimento pode ter importância nas próximas eleições?
Sim. Podem usar o ano eleitoral para disseminar suas ideias. Mas não imagino candidaturas. Não é um movimento de política eleitoral.
Como movimentos desligados das principais instituições da sociedade podem sobreviver?
Eles aparecem, se sustentam por semanas ou meses. Depois perdem a atenção da mídia, perdem apoio, desaparecem. E depois reaparecem em algum outro lugar.
Há um senso de continuidade, mas não num mesmo lugar. É um movimento transespacial fundamentado por razões locais. É preciso ver isso no contexto do capitalismo. É um movimento muito fluido e flexível.
Fui a Wall Street. Estava lá e nem sabia que haveria uma marcha. Há espontaneidade. Aparecer, desaparecer. É parte de sua força e de sua fraqueza.

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