domingo, 16 de outubro de 2011

Fiéis veneram Simón Bolívar em "montanha mágica" venezuelana

Rituais têm adoração à 'mulher nua', dona da montanha, e dança sobre brasas; presidente Chávez faz referência ao culto à deusa

FLÁVIA MARREIRO
ENVIADA ESPECIAL A CHIVACOA

Uma guerreira viking e uma mulher de seios à mostra jazem ao lado de um busto do herói Simón Bolívar num altar de Sorte, a montanha mágica da Venezuela.
Soam tambores e os observadores consomem charutos em baforadas espessas.
As honras, na última terça, eram loas à mulher nua, a rainha indígena María Lionza, "dona da montanha" e matrona da religião que mistura crenças autóctones, as trazidas pelos escravos, personalidades políticas e até criminosos célebres.
Os marialionceros se reúnem em Chivacoa, a 300 km de Caracas, e somam 12 mil entre 11/10 e 12/10, quando os mais valentes provam sua fé dançando sobre brasa.
Enquanto o devoto se prepara para atravessar mais uma fogueira, o locutor pede palmas à plateia. O espetáculo, antes improvisado, ganhou apoio estatal: há bombeiros, policiais. Quem quer participar, avisa o cartaz, tem de trazer duas fotos 3x4.
A institucionalização não incomoda os fiéis. Nisso a religião que incorpora novas deidades -inclusive vikings, provavelmente vistos na TV- também é aberta. "Excelente. Temos segurança", diz Emiglia Marin, 62.
Emiglia foi a Sorte pedir a Bolívar (1783-1830), prócer da Independência e referência para Hugo Chávez, que retire o filho dela da cadeia.
O herói e outros nomes da luta contra os espanhóis são divindades. As cores pátrias -vermelho, amarelo e azul- são os emblemas. A simbiose entre nacionalismo e religião é uma peculiaridade da Venezuela, explica Elías Pino Iturrieta, autor de "El Divino Bolívar" (o divino Bolívar, 2003).
Ele conta que a Igreja Católica declarou Bolívar semideus, abrindo caminho para o herói nos altares.
Chávez, doente de câncer, costuma rogar saúde "aos espíritos da savana", em referência ao culto. "Ele diz representar a leitura oficial dos evangelhos bolivarianos. É fácil caminhar entre María Lionza e a quimioterapia para pedir", diz o historiador.

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