quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Democracias disfuncionais

FERNANDO RODRIGUES

LIMA - O presidente do Peru, Ollanta Humala, disse nesta semana que "a democracia não é incompatível com a liberdade de expressão". O conceito é curioso.
Equivale a dizer que "a democracia não é incompatível com a justiça". É um truque. Pronuncia-se um truísmo de maneira enviesada para ressaltar a pouca convicção de quem o exprime. Justiça e liberdade de expressão são partes integrantes da democracia. Incompatibilidade não está em questão.
Humala falou aqui em Lima na abertura da 67ª Assembleia Geral da SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa). Estava à frente de dezenas de donos de jornais e revistas do continente, muitos ultraconservadores. A presença do presidente peruano foi logo interpretada como uma demonstração de boa vontade. Um sinal de que o Peru não seguirá o caminho de confrontação como o de alguns países vizinhos.
Mas havia um ar de ressentimento na cerimônia. Além de sua curiosa definição sobre liberdade de expressão, Humala estava na defensiva. Ao seu lado, o presidente da SIP, Gonzalo Marroquín, acusou os governos da Argentina, da Bolívia, do Equador e da Venezuela de "trair" os "princípios democráticos e a liberdade de expressão". Todos são aliados de Humala.
A América Latina passa por um momento paradoxal. Depois de vários ajustes econômicos nos anos 80 e 90, vários países (Peru incluso) estão, em tese, prontos para desempenhar um papel decisivo neste momento de incertezas financeiras no mundo desenvolvido.
Ainda assim, a aversão em promover um ambiente de mais liberdade confere uma imagem disfuncional a certas democracias latinas.
O Peru é um desses casos e não está sozinho. Ollanta Humala tem tentado emular um pouco a travessia empreendida por Lula, da esquerda para o centro. A conversão parece estar em curso. Só que o processo ainda não se consumou por completo.

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