domingo, 16 de outubro de 2011

Brasil ajudou 'Anjo da Morte' argentino

Itamaraty pressionou britânicos a repatriar Alfredo Astiz, em 82; hoje, ele é julgado por crimes da época da ditadura

Militar, símbolo das violações do regime, havia se rendido ao Reino Unido durante a Guerra das Malvinas

JOÃO CARLOS MAGALHÃES
RUBENS VALENTE

DE BRASÍLIA

O Brasil pressionou o Reino Unido, durante a Guerra das Malvinas, em 1982, pela repatriação de um acusado de crimes contra os direitos humanos na ditadura militar argentina (1976-1983).
É o que revelam telegramas confidenciais assinados pelo então embaixador brasileiro em Londres, Roberto Campos (1917-2001), ex-ministro do Planejamento após o golpe militar de 1964.
A íntegra dos 110 telegramas produzidos no auge da guerra está disponível a partir de hoje no Folha Transparência (www.transparencia.folha.com.br), que já colocou na internet 1.361 telegramas cujo sigilo foi retirado pelo Itamaraty a pedido da Folha.
O maior conflito armado entre um país da América do Sul e outro da Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial, que deixou cerca de mil mortos nos dois lados, completará 30 anos em abril.
Assim que a guerra começou, em 1982, Argentina e Reino Unido romperam relações diplomáticas. Acolhendo um pedido da junta militar que governava a Argentina, o Brasil -na época governado por um ditador, o general João Figueiredo (1918-1999)- orientou sua embaixada em Londres a atuar na proteção de interesses da Argentina em solo britânico.
Uma das principais funções da embaixada foi zelar pela volta à Argentina do capitão-de-fragata Alfredo Astiz, um símbolo da repressão argentina, apelidado de "Anjo Louro da Morte".
Atualmente, Astiz está sendo julgado na Argentina por alguns dos crimes que teria cometido na ditadura.
Há quase 30 anos, após ter-se rendido aos britânicos perto das Malvinas, ele foi levado ao Reino Unido. Como ocorreu com outros 150 argentinos nos primeiros dias da guerra, poderia ter sido repatriado após sua prisão.
Mas França e Suécia manifestaram interesse em processar Astiz em seus países, o que levou o Reino Unido a retardar a entrega do prisioneiro. A Argentina acionou o Brasil, que passou a pressionar os britânicos.
No final de maio, por exemplo, Campos escreveu que o Ministério das Relações Exteriores britânico ainda não havia respondido ao pedido brasileiro de "pronto repatriamento" do militar.
Astiz era suspeito do assassinato de duas religiosas francesas e uma estudante sueca em 1977, além de ser suspeito de assassinatos e torturas de presos políticos.
A ele também foi atribuída participação no sequestro e morte de três líderes do movimento das Mães da Praça de Maio, no qual Astiz teria se infiltrado em 1977. Essas acusações já eram conhecidas desde, pelo menos, 1979.
Contudo, o Brasil fez grande esforço para obter a devolução de Astiz a Buenos Aires. O que de fato ocorreu, em junho de 1982. Escoltado por um oficial britânico, funcionários do Itamaraty e um agente do centro de inteligência da Aeronáutica brasileira, Astiz passou pelo Rio antes de parar em Buenos Aires.
A França, contudo, manteve o processo contra Astiz, condenando-o à prisão perpétua em 1990, à revelia. Astiz só seria preso na Argentina, a pedido da França e da Suécia, no final dos anos 90. Foi solto e novamente preso, em 2003, pelo caso francês.

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