terça-feira, 11 de outubro de 2011

Adeus, Obama

VLADIMIR SAFATLE

Há alguns anos, o presidente dos EUA, Barack Obama, parecia ser a encarnação de uma nova política. O fato de ser negro em um país que conhecera leis segregacionistas, de ter nome árabe, ser inteligente e ter passado a infância em outros países parecia a coroação perfeita do ideal multicultural e tolerante.
Ele era a representação perfeita desses novos atores que sobem à cena sempre que vemos os momentos de crise das antigas elites atingirem o ápice. Agora que falta um ano para o fim de seu primeiro mandato, percebe-se o quanto essas esperanças passaram ao largo da história real. Em todas as áreas, seu governo tem resultados pífios.
Sua política econômica perdeu, logo na entrada, a coragem de confrontar-se com o sistema financeiro, de arrancar uma nova versão de um "New Deal" à la Franklin Roosevelt. Isto a ponto de o mundo ver a situação patética de uma das maiores fortunas dos EUA (Warren Buffett) lembrar o óbvio: que o sistema tributário norte-americano é completamente distorcido, beneficia só os mais ricos e de que o governo Obama nada fez para combater tal aberração.
Sua política social poderia ser marcada pela criação de um verdadeiro sistema público de saúde capaz de, enfim, livrar os mais vulneráveis da sanha draconiana das grandes seguradoras. No entanto o resultado final de seu projeto foi algo mais próximo de uma declaração de fracasso. Seu sistema conseguiu a proeza de desagradar todo mundo.
Por sua vez, o maior feito de sua política externa foi o assassinato de Bin Laden. Não precisávamos de Obama para este serviço. George W. Bush o faria com o maior prazer.
Fora isso, Obama não ofereceu nada de novo, a não ser uma patética coreografia de idas e vindas. Condenou o golpe militar de Honduras e depois voltou atrás. Defendeu as fronteiras de 1967 para o Estado palestino e depois voltou atrás. Prometeu diálogo com o Irã e depois voltou atrás.
Diz-se normalmente que a política é a arte da negociação e do consenso. Nada mais errado. A política é, em seu fundamento, a decisão a respeito do que será visto como inegociável. Ela é a afirmação taxativa daquilo que não estamos dispostos a colocar na balança. Se Obama tivesse compreendido isso, talvez ele teria ao menos uma importante parcela da população disposta a defender suas conquistas.
Mesmo os jovens que ocupam Wall Street não estão lutando apenas contra os detentores das rédeas do sistema econômico. Eles mostram, com isso, seu profundo desencanto com Barack Obama.
Agora, mesmo que ganhe um segundo mandato no ano que vem, ele nunca mais encarnará a esperança que, em um curto dia, representou.

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