sábado, 24 de setembro de 2011

O contrato social

PAUL KRUGMAN




A questão é que todos vivemos em uma sociedade maior e nos beneficiamos por fazer parte dela

NESTA SEMANA, o presidente Barack Obama disse o óbvio: que os americanos ricos, muitos dos quais pagam muito pouco em impostos, deveriam arcar com parte do custo da redução do deficit orçamentário de longo prazo. E republicanos como o deputado Paul Ryan responderam com gritos de "guerra de classes!".
Estimativas mostram que, entre 1979 e 2005, a receita (já contabilizada a inflação) das famílias na faixa do meio da distribuição de renda subiu 21%. Enquanto isso, no mesmo período, a receita dos muito ricos subiu 480%.
Os ricos lhe parecem ser vítimas de uma guerra de classes?
Para sermos justos, discute-se até que ponto políticas governamentais foram responsáveis pela espetacular disparidade de aumento de renda. O que sabemos ao certo, no entanto, é que essa política tem consistentemente beneficiado os ricos em oposição à classe média.
Alguns dos aspectos mais importantes desse viés envolveram coisas como o ataque sustentado ao movimento sindical organizado e a desregulamentação financeira, que criou fortunas enormes ao mesmo tempo em que abriu caminho para o desastre econômico. Mas foquemos hoje apenas sobre os impostos.
Uma consequência da cobrança de menos impostos sobre a riqueza e mais sobre o trabalho é a criação de muitas situações em que pessoas com rendas multimilionárias, que normalmente recebem boa parte dessa renda em ganhos de capital e outras fontes que são pouco taxadas, acabam pagando uma parcela total de impostos mais baixa que os trabalhadores de classe média.
De acordo com novas estimativas feitas pelo Centro de Política Tributária, não partidário, um quarto das pessoas com receita superior a US$ 1 milhão por ano pagam imposto de renda e salarial de 12,6% ou menos de sua receita -menos do que a porcentagem paga por muitas pessoas da classe média.
Eu sei como a direita vai responder a esses dados, oferecendo estatísticas enganosas e fazendo afirmações morais dúbias. Por outro lado, temos a alegação de que os ricos têm o direito de ficar com seu dinheiro. A questão é que todos vivemos em uma sociedade maior e nos beneficiamos por fazer parte dela.
Elizabeth Warren, a reformadora financeira que está concorrendo a uma vaga no Senado por Massachusetts, recentemente deu algumas declarações eloquentes que vêm chamando muita atenção, e com razão.
"Não há ninguém neste país que tenha enriquecido sozinho, ninguém", ela declarou, observando que os ricos só podem enriquecer graças ao "contrato social" que garante uma sociedade decente e funcional no qual possam prosperar.
Isso nos traz de volta àqueles gritos de "guerra de classes".
Os republicanos alegam estar profundamente preocupados com o deficit orçamentário. Mas eles insistem que os ricos não sejam chamados a exercer qualquer papel na defesa do país contra essa ameaça existencial.
Isso equivale a exigir que algumas poucas pessoas de muita sorte sejam isentas do contrato social que se aplica a todo o resto.
E isso, caso você esteja se perguntando, é exatamente a cara que tem a guerra de classes real.

Tradução de CLARA ALLAIN

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