sábado, 17 de setembro de 2011

Na periferia de Damasco, guerra é aberta

Folha presencia assassinato de um faxineiro de 47 anos que se manifestava contra o regime do sírio Bashar Assad

Em contraste com calma aparente do centro, os arredores da capital da Síria vivem uma rotina de enfrentamentos



Omar Ibrahim/Reuters
Ativistas sírios e libaneses fazem protesto no Líbano contra o regime de Bashar Assad

MARCELO NINIO
ENVIADO ESPECIAL A DOUMA (SÍRIA)

Enquanto no centro de Damasco predomina uma calma aparente, na periferia da capital a situação assume contornos de guerra popular.
Depois de ultrapassar cinco barreiras de segurança, a Folha conseguiu entrar ontem no subúrbio de Douma, um dos mais conflagrados do entorno de Damasco.
No coração da capital síria, um efetivo de segurança composto por centenas de policiais com cassetetes e até pedaços de pau teve êxito em evitar que as orações se transformassem em protestos.
Já na periferia, longe dos olhos da imprensa estrangeira, o confronto foi aberto e sangrento. Dois manifestantes foram mortos ontem em Douma por disparos das forças de segurança quando participavam de protestos ao lado da mesquita principal.
Um deles morreu diante da reportagem da Folha, com um buraco de tiro no pescoço do diâmetro de uma bola de tênis. A carteira profissional que levava no bolso o identifica como Soubhi Zrara, faxineiro de 47 anos.

FRANCO-ATIRADOR
Um rapaz que aparentava 16 anos sobreviveu após tomar um tiro no rosto. Sem poder falar, com um grande curativo na face direita, contou à Folha por meio de gestos que foi atingido por um franco-atirador quando jogava pedras nos soldados.
"Os tiros são para matar, sempre do peito para cima", diz um estudante de comércio de 18 anos, a voz abafada por uma máscara cirúrgica.
Como todos, pede para não ser identificado nem fotografado. "A máscara me protege do gás e de entrar na lista negra da polícia", afirma.
Moradores calculam que cerca de 5.000 pessoas participaram das manifestações de ontem em Douma. O cenário era de um jogo de gato e rato, com correrias repentinas quando as forças de segurança avançavam.
Tiros e bombas de gás lacrimogêneo espocavam a todo momento, enquanto jovens mascarados corriam entre a linha de frente e a retaguarda dos confrontos. Volta e meia, um carro saía em disparada com um ferido.
A sexta-feira é tradicionalmente o dia mais conflituoso da semana. Reúne multidões em mesquitas e as forças de segurança ficam em alerta para reprimir manifestações.
A oração de ontem tinha um elemento adicional de tensão, já que marcava os seis meses do levante antirregime. As marcas da repressão ao levante estão nas fachadas dos prédios, pontuadas por furos de bala.
Quase todos os muros de Douma, uma empobrecida cidade de 100 mil habitantes a 10 km de Damasco, estão cobertos por faixas de tinta preta. Rabiscadas pelo regime, ocultam pichações contra o ditador Bashar Assad.
Com a presença esmagadora de soldados, o território de Douma foi demarcado pelos protestos: o coração da cidade, foco dos distúrbios, é território livre de jovens encapuzados, que abastecem os que estão na linha de frente com pedras e telefones celulares com câmeras.
Fora do centro, soldados montam barricadas e interceptam todos os carros para averiguação. Embora o governo afirme que os protestos são orquestrados por grupos armados, ao menos em Douma a reportagem da Folha não viu armas entre os manifestantes.
Moradores admitem que muitos na cidade possuem armas em casa, mas que, por enquanto, há um consenso de que as manifestações devem ser feitas de forma pacífica, a fim de não tirar a legitimidade do levante.
Há exceções. Segundo relatos de manifestantes, três soldados desertaram anteontem e abriram fogo contra ex-colegas de farda.
O número de deserções nesses seis meses de protestos é controverso. O regime diz que os casos são raros, enquanto os manifestantes garantem que cada vez mais soldados mudam de lado.
O que é unanimidade entre os opositores é que a repressão não irá sufocar o levante. "Só iremos parar quando Assad cair", diz um franzino operário de 19 anos.

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