terça-feira, 20 de setembro de 2011

Israel tem que sair de Masada

CLÓVIS ROSSI




País revive complexo cujo nome deriva de resistência de judeus a ataque dos romanos, há dois milênios

ISRAEL REVIVE o complexo de Masada, a fortaleza em que 960 judeus resistiram até a morte às hordas romanas, vitoriosas no ano 73.
Complexo de Masada é um tema frequente no léxico político-diplomático de Israel, por designar a sensação de que o mundo inteiro está contra os judeus.
Nos últimos anos, a expressão caíra em desuso mas reapareceu ontem na mídia, explicitamente, e no Parlamento, indiretamente.
Carlo Strenger, chefe do Departamento de Psicologia da Universidade de Tel Aviv, escreveu no jornal "Haaretz" que o governo israelense "continua a ser guiado pelo mito de Masada, em vez de [adotar] uma avaliação realista da realidade internacional".
No Parlamento, a líder oposicionista Tzipi Livni afirmou que o governo está contando a história do momento como se "todos fossem contra nós", como se "todo o mundo fosse antissemita".
A líder oposicionista acrescentou que Israel não tem apenas inimigos, mas também um grande amigo, os Estados Unidos, que, no entanto, estão sendo colocados contra as cordas pelo que chama de "estupidez diplomática" do governo: "Eles [os EUA] não entendem a teimosia sobre os assentamentos, eles não acreditam no primeiro-ministro de Israel quando ele diz 'dois Estados' mas não faz nada para isso".
Essa sensação de isolamento -uma característica relativamente permanente da psique coletiva de Israel- tem até motivos objetivos para ressurgir. Escreve, por exemplo, Bradley Burston, colunista do "Haaretz": "É a primeira vez desde a fundação de Israel, em 1948, que o Estado não tem como aliada nenhuma das três potências regionais, Egito, Turquia e Irã".
Para fechar o cerco, vem o pedido da Autoridade Palestina de reconhecimento do Estado palestino, o que, qualquer que seja a fórmula afinal aprovada, colocará o que boa parte dos israelenses veem como inimigo em pleno território que esses mesmos israelenses consideram seu (a Cisjordânia e Jerusalém Oriental, para não falar da faixa de Gaza), mas que a legalidade internacional atribui aos palestinos faz 64 anos.
Refugiar-se de novo nessa Masada muito ampliada que é o território hoje ocupado por Israel e colonos não vai resolver o problema.
Nem os palestinos conseguirão jogar os judeus ao mar, como muitos de fato gostariam, nem Israel vai conseguir empurrar os palestinos para a Jordânia, uma limpeza étnica que aparece e desaparece em segmentos radicais da sociedade israelense.
Resta, pois, negociar a solução dos dois Estados, para o que Netanyahu terá que ceder territórios, já que a Autoridade Palestina calcula que seu pedido de Estado cobre apenas 22% do território originalmente destinado a ele pela ONU.
É penoso, mas, como escreve o ex-chanceler israelense Shlomo Ben Ami, "enquanto não terminar a ocupação [dos territórios palestinos], enquanto Israel não viver em fronteiras internacionalmente reconhecidas e os palestinos não recuperarem sua dignidade como nação, a existência do Estado judeu não estará assegurada".
Masada, pois, continuará assombrando Israel.

crossi@uol.com.br

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