quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Hora da retirada

Editoriais

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Abre-se oportunidade de fixar um prazo, não maior que dois anos, para trazer as tropas brasileiras na missão da ONU de volta do Haiti

Fica aquém do esperado, seja pelo baixo número de militares repatriados, seja pelo lento cronograma, o plano de retirada parcial do efetivo militar brasileiro na missão de paz no Haiti.
A previsão é que até o final do ano que vem 250 dos 2.185 capacetes azuis brasileiros no Haiti retornem para cá. Portanto, ao final de 16 meses, o Brasil ainda manterá no país caribenho um efetivo 60% maior que os cerca de 1.200 militares que lá estavam antes do terrível terremoto de janeiro de 2010.
No total, a ONU prevê uma redução de 18% no número de soldados, de 8.700 para 7.100.
O aumento da presença militar no país depois do desastre foi crucial para a manutenção de um mínimo de ordem e segurança no Haiti. O sismo matou 230 mil pessoas. Um em cada cinco funcionários públicos pereceu, assim como uma centena de funcionários das Nações Unidas, entre eles o chefe da missão humanitária.
Desde então, no entanto, o eixo de prioridades mudou. Embora ainda haja surtos esporádicos de violência, e muitas áreas do país estejam longe de serem consideradas seguras, a situação estabilizou-se. A eleição presidencial do primeiro semestre de 2011, apesar de confusa e questionada, terminou consagrando o candidato que de fato obteve a maior fatia do apoio popular, Michel Martelly.
O foco da ajuda internacional já pode migrar, gradativamente, da segurança pública para as tarefas de reconstrução da infraestrutura do Haiti, formação de uma burocracia civil eficiente e aplicação de dinheiro doado em atividades econômicas capazes de emancipar o país ao longo dos anos.
Mais que soldados, o Haiti necessita agora formar seu governo -um impasse político no Parlamento impede a nomeação de um primeiro-ministro. Além disso, o país precisa de engenheiros e especialistas em legislação e em serviços públicos, como saúde e educação. Necessita, também, que os países doadores cumpram as promessas -até maio, 37% dos US$ 4,6 bilhões prometidos após o tremor haviam sido entregues.
As Nações Unidas deverão votar até o mês que vem a renovação do mandato da força de paz no Haiti, que atua na estabilização do país desde 2004. Questões como o escopo da missão militar e a data para sua retirada definitiva precisam passar por ampla revisão.
Após não mais que dois anos de diminuição paulatina, a atuação de soldados brasileiros no Haiti deveria ser interrompida. Já o apoio civil e financeiro ao país caribenho, do governo e da sociedade do Brasil, precisa ser duradouro -desde que esse esforço seja acompanhado, proporcionalmente, pelas nações mais ricas.

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