domingo, 18 de setembro de 2011

A grande entrevista de Jacqueline Kennedy

ELIO GASPARI




A imagem chique, até meio distraída, era a armadura de uma mulher determinada e sofrida, que sabia de tudo


Saiu nos Estados Unidos o pacote de sete longas entrevistas que Jacqueline Kennedy deu ao historiador Arthur Schlesinger Jr. em 1964, poucos meses depois do assassinato de seu marido. É um retrato de uma grande mulher, dona de uma vontade de ferro e imbuída de um raro sentido da história, escondida atrás de uma delicada aparência de refinada futilidade. Lia melhor que o marido, guardava até rabiscos e tinha um fino senso de humor: "'Primeira-dama' parece nome de cavalo de corrida".
Até sua morte, em 1994, aos 65 anos, Jackie deu apenas três entrevistas. Na primeira, dias depois do assassinato de Kennedy, criou o mito de "Camelot", a lenda de cavalaria medieval semelhante, em sonho, ao governo de seu marido. A segunda saiu do cofre agora. A terceira só será conhecida em 2067.
Jackie sofrera como poucos. O pai (que ela adorava) tomou um porre e não apareceu na cerimônia do seu casamento. Morrera-lhe um filho com poucos dias de vida e, em Dallas, teve os miolos do marido espalhados no vestido.
Nas sete conversas de 1964, Jacqueline falou para o século seguinte. John Kennedy não tinha defeitos e seu papel fora servi-lo. Uma Amélia chique. Ao contrário do que se esperava, a cama da Casa Branca ficou fora da pauta. Há apenas uma breve referência a um adversário político que se orgulhava de jogar squash e fazer sexo uma vez por semana, numa insinuação sobre a saúde débil de Kennedy. Ela contou o caso e gargalhou, junto com Schlesinger. ("Jacqueline Kennedy - Historic Conversations on Life with John F. Kennedy" vem junto com seis CDs. O pacote está na Amazon e, nos Estados Unidos, o e-book pode ser baixado por US$ 9,99. Ouvir Jackie com sua adorável e afetada língua presa é um bálsamo para quem convive com a sonoplastia de Lula.)
Kennedy chorou nos dias seguintes à fracassada invasão de Cuba, em 1961, quando 2.500 exilados da força expedicionária foram capturados pelas tropas castristas. Sua descrição dos prisioneiros quando retornaram, trocados por tratores, mostra a alma da senhora: "Eles tinham uns rostos maravilhosos, como os de El Greco. Muito magros".
Jacqueline conta a crise dos mísseis soviéticos colocados em Cuba com alguma emoção. Nunca o mundo esteve tão perto da Terceira Guerra, mas Kennedy só lhe contou o rolo quatro dias depois de seu início. Ele não sugeriu que deixasse Washington, mas ela pediu para ficar. (Em Moscou, alguns familiares da Nomeklatura viajaram.)
A moça criada na Nova Inglaterra, lapidada na França e casada numa família de milionários primitivos lustrou a biografia liberal de Kennedy, mas tropeçou em dois personagens. E que personagens: Franklin Roosevelt e Martin Luther King.
A respeito de Roosevelt, relembrou: "Ele [Kennedy] às vezes o considerava um charlatão -charlatão é uma palavra injusta, e você entende o que estou dizendo, um pouco poseur, esperto."
Com Martin Luther King a coisa piora: "Ele me contou de uma gravação do FBI de quando King esteve aqui para a Marcha da Liberdade [a do discurso do "eu tive um sonho"]. (...) Ligava para umas garotas, armando uma festa de homens e mulheres, uma orgia no hotel. (...) Eu não posso ver retratos dele sem pensar, sabe, aquele homem era horrível."
(Kennedy, cuja cama já fora grampeada, tentou intimidar King com a "vigilância" do FBI, mas ele se fez de bobo.)
No dia 16 de outubro o companheiro Obama inaugurará o memorial de King em Washington, onde há monumentos a Thomas Jefferson, Abraham Lincoln e Roosevelt.

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