terça-feira, 2 de agosto de 2011

O Brasil e a Síria

Editoriais
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O recrudescimento da violência do regime sírio contra seus cidadãos deixa claro que o momento não é mais de diálogo com a ditadura de Bashar Assad, como parece crer o governo brasileiro, mas de inequívoca condenação.
A atuação do Brasil na crise síria não condiz, até agora, com a orientação da presidente Dilma Rousseff de que a defesa dos direitos humanos é uma diretriz central na sua política externa.
A repressão comandada pelo ditador Assad já causou a morte de cerca de 1.500 pessoas nos quatro meses que duram os levantes contra seu governo. Nos últimos dias, temendo que aglomerações em mesquitas ocasionadas pelo mês sagrado do Ramadã ajudem a intensificar protestos, lançou um brutal massacre preventivo.
O número de vítimas da mais recente ofensiva, muitas mortas por disparos de tanques, se aproxima da centena em um único dia.
O Brasil, que vinha se opondo a qualquer condenação mais veemente à ditadura de Assad no Conselho de Segurança da ONU, ainda prepara uma missão diplomática a Damasco, em parceria com a Índia e a África do Sul. O momento, é evidente, não poderia ser mais inoportuno.
A incongruente posição do Brasil rendeu até um agradecimento público do governo sírio no mês passado. Brasília temia uma repetição do caso da Líbia e não está de todo errada ao criticar os Estados Unidos e seus aliados: a ONU autorizou o uso da força só para proteger civis, mas as potências buscam derrubar, por meio das bombas, o ditador Muammar Gaddafi.
Por sangrenta que seja a repressão síria, as violações não chegam ao ponto em que a soberania do país possa ser desconsiderada. Mas há uma enorme distância entre a opção militar -fora de questão- e críticas contundentes. O cenário exige uma forte condenação por parte das Nações Unidas.
O massacre ao menos levou o Brasil a rever sua oposição a uma resolução que condene a Síria. A saída antes proposta, uma mera declaração de repúdio, ficava aquém da gravidade dos fatos. O ônus de barrar a medida recai, agora, sobre a China e a Rússia.
O regime sírio precisa sentir, como se já não estivesse claro, que o mundo repudia a matança. A missão integrada pelo Brasil acabará interpretada como vistas grossas diante das atrocidades.
A correção de rumos que Dilma Rousseff imprimiu à diplomacia brasileira é um diferencial positivo na comparação com o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Espera-se que não subordine a cálculos geopolíticos, tão cedo, o compromisso com os direitos humanos.

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