sábado, 20 de agosto de 2011

Médico falava sobre injeções no Araguaia, diz ex-combatente

JOÃO CARLOS MAGALHÃES

DE BRASÍLIA

Um ex-policial militar que combateu na Guerrilha do Araguaia (1972-1974) afirmou que ouviu de Walter da Silva Monteiro, um médico militar aposentado de Belém (PA), que a aplicação de injeções letais era um golpe de misericórdia em guerrilheiros comunistas combalidos pela tortura e maus tratos.
É o quinto ex-combatente do conflito que reconhece, à Folha, o coronel da reserva do Exército como sendo o "capitão Walter", médico que atuou na guerrilha.
No domingo passado, a Folha publicou os relatos de outros quatro ex-soldados que reconheceram por meio de fotografia Monteiro, que chegou a dirigir dois dos principais hospitais de Belém.
Dois ex-combatentes, em gravação feita pelo grupo do governo federal que procura ossadas do conflito, levantaram a hipótese do envolvimento do médico com as injeções.
Mas esses dois diziam que só tinham ouvido falar na relação entre Monteiro e as mortes pelo método químico. Já Josias Souza, 59, afirmou que o próprio coronel comentava sobre a vantagem das injeções.
"Ele próprio [dizia]: "Vamos evitar uma bala, que custa mais", e aí acho que tinha um tom de brincadeira com vidas humanas, "e vamos fazer isso de forma mais suave"", disse o ex-soldado Souza --que aceitou dar seu nome, mas não mostrar seu rosto em vídeo gravado pela reportagem.
Souza estava no final de sua adolescência quando chegou na região do Araguaia, onde passou ao menos 60 dias.
Segundo ele, ao ser levado para o local, junto a outros policiais militares de Goiás, não sabia do que se tratava a missão.
Após mais de um mês combatendo na selva, passou a trabalhar na base de Xambioá (TO), onde conviveu com o "capitão Walter".
Lá, afirmou, ajudou a retirar da enfermaria 17 cadáveres de guerrilheiros.
Os corpos eram enterrados em covas verticais, cavados pelos próprios presos, ou jogados, de helicóptero, em uma cachoeira no meio da mata, disse.
Ele afirmou acreditar que ao menos parte dessas pessoas foram mortas com as injeções, chamada de "mercadoria", segundo o ex-policial militar.
Souza disse não ter presenciado as aplicações, mas chegado "no final do capítulo", "porque não se ouvia naquele momento tiro, e o comentário dos oficiais e a ordem [era] de conduzi-los [os cadáveres] a um local para que fossem colocados outros [guerrilheiros]" na enfermaria da base.
O ex-combatente hoje sofre de depressão, e diz ser incapaz de esquecer os gritos dados por guerrilheiros que eram torturados --alguns deles ficavam em um poço, onde lixo, fezes e urina eram jogados, segundo ele.
"Até hoje isso me machuca muito. Eu tenho sofrido muito nas minhas noites, porque fica arquivado. O pior juiz fica dentro da nossa própria cabeça."
Procurado pela Folha duas vezes, Walter da Silva Monteiro negou ter participado da guerrilha. Afirmou que, no período, estava em Belém, e não na região do Araguaia.

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