quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Londres está queimando

KENNETH MAXWELL

A faísca foi a morte de Mark Duggan, causada por disparos da polícia, em Tottenham, Londres. No sábado, amigos e parentes dele foram até a delegacia local para protestar.
Não receberam qualquer resposta das autoridades, a despeito de garantias de que seriam atendidos por um oficial de alta patente. Na mesma noite, começaram os tumultos, que cresceriam pelos quatro dias seguintes.
Não demorou para que certas áreas da capital britânica fossem tomadas pelas chamas. Foram os piores incêndios em Londres desde os bombardeios da Segunda Guerra. Centenas de jovens enfrentaram a polícia em batalhas campais. Muitos outros participaram de saques.
Os lojistas ficaram sem proteção. Até a noite de terça, quando a polícia colocou mais de 15 mil homens nas ruas, muitos trazidos de fora da cidade, as batalhas de rua eram vencidas pelos arruaceiros.
O levante ocorreu no início de agosto, quando os políticos britânicos tradicionalmente tiram férias. O premiê David Cameron e sua mulher estavam na Itália. O prefeito de Londres, Boris Johnson, no Canadá. A secretária do Interior, Theresa May, na Suíça.
Quando os tumultos começaram a se espalhar pela capital, May retornou ao Reino Unido. Na terça, Cameron estava de volta ao nº 10 de Downing Street, a sede do governo britânico. Boris Johnson também retornou de Calgary. Mas, àquela altura, os tumultos tinham se espalhado por outras grandes cidades inglesas, como Birmingham, Liverpool, Bristol e Nottingham.
O Parlamento retornará mais cedo do recesso para discutir a crise. Mas os políticos estão reagindo com atraso. A resposta imediata deles foi prometer ação punitiva e condenar os participantes dos tumultos como "arruaceiros irresponsáveis".
Nick Clegg, o vice-primeiro-ministro, foi apupado ao visitar Birmingham. Boris Johnson, que brandia uma vassoura ao estilo de Jânio Quadros, também foi vaiado por lojistas atacados na confusão, ao tentar confortá-los.
O problema é que Mark Duggan aparentemente não estava armado quando foi morto a tiros pela polícia.
Os jovens que participaram dos tumultos vêm, em geral, de áreas pobres da cidade. Foram as mais prejudicadas pelo corte de verbas governamentais para os serviços municipais e centros de juventude.
A polícia de Londres, em clara inferioridade numérica diante dos manifestantes, também está enfrentando corte de verbas de 20%, para não mencionar as investigações em curso sobre o escândalo das escutas telefônicas.
A verdade é que estamos apenas começando a ver as consequências dos tumultos de agosto em Londres.


KENNETH MAXWELL escreve às quintas-feiras nesta coluna.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

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