quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Histórias e tradições das Arcadas


EDUARDO CESAR SILVEIRA VITA MARCHI



Aos poucos, o canto do "pic-pic", que surgiu nas Arcadas, foi-se difundindo pelas festas de aniversário, primeiro em São Paulo, depois no país

Histórias da São Francisco,
Que eu canto com emoção,
Em cada canto do largo,
Eu largo meu coração.
(Trova do poeta Paulo Bomfim).

Neste texto contaremos a surpreendente origem histórica do canto do "pic-pic", famoso nas festas brasileiras de aniversários, e sua vinculação com a vida acadêmica da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (da Universidade de São Paulo) -as Arcadas.
Como se sabe, em muitos lares do país, durante as comemorações familiares de aniversários, cantam-se, em seu ápice, os parabéns com a versão brasileira da famosa melodia do "Happy Birthday".
Terminada a canção, surge de repente um grito de evocação: "E pro Fulano, nada! Tudo! E então como é que é? É". Segue-se o conhecido e enigmático canto do "pic-pic": "É pic, é pic, é pic, é pic, é pic! É hora, é hora, é hora, é hora, é hora! Rá, tim, bum! Fulano, Fulano, Fulano!".
Na verdade, estamos diante de brincadeira e de gritos de guerra surgidos nos corredores e no pátio das Arcadas, entre os estudantes das primeiras décadas do século passado. A princípio, não apresentavam vinculação com festas de aniversários. Eram gritos de pilhéria, regozijo e canções de evocação.
"Pic-pic" era o apelido de um dos líderes das "estudantadas" em sua época, década de 1920, Ubirajara Martins de Souza. Bacharelou-se pela nossa faculdade em 1927.
Era figura conhecida entre os colegas. Portava barba imponente, acompanhada de bigodinhos de pontas aguçadas. Vaidoso, aparava constantemente tais bigodes, servindo-se de uma tesourinha cujo peculiar som de corte sempre ecoava: "pic, pic, pic, pic".
Não tardou para que tal característica lhe rendesse o apelido de "Pic-pic"! Quando aparecia, seus colegas o saudavam entusiasticamente: "É o Pic-pic, é o Pic-pic!".
Já naquela época era costume entre os estudantes dirigir-se ao seu principal bar de encontro: o Ponto Chic, que segue funcionando no largo do Paissandu.
Ali, consumiam rapidamente as cervejas geladas disponíveis. Era preciso aguardar um tempo até que novas garrafas fossem refrigeradas, o que durava em média meia hora.
Os estudantes, acompanhando ansiosamente o avanço do relógio, alvoroçavam-se diante da proximidade do grande momento e punham-se em coro a cantar, clamando de modo desesperado pelas cervejas geladas: "Meia hora, meia hora, é hora, é hora, é hora"!
Por fim, ainda naquele período, recebeu a faculdade uma insólita visita: um rajá indiano, chamado Timbum, proveniente da região de Kapurtala. O acontecimento inusitado, aliado à sonoridade do nome, deu chance aos alunos de incorporar, ao final dos seus cantos, novo grito de guerra: "Ra-já-Tim-bum!".
Geração após geração, foram sendo passados esses cantos e gritos de guerra, sobrepostos uns aos outros, entre os estudantes do largo: "É Pic, é Pic, é Pic, é Pic, é Pic!; meia hora, meia hora, é hora, é hora, é hora!; Rá-já-tim-bum!".
Naquela época, os estudantes do largo eram figuras bastante conhecidas na sociedade paulistana. Por isso, as importantes famílias da cidade, principalmente quando das festas de aniversário de suas filhas casadouras, honravam-se em recebê-los. Aos poucos, o canto do "pic-pic" foi-se difundindo pelas festas de aniversário em São Paulo, mesmo sem os estudantes, e depois estendeu-se para todo o país.
As Arcadas são assim: passado mas também futuro. Olha-se para trás enquanto mira-se o porvir.


EDUARDO CESAR SILVEIRA VITA MARCHI é professor titular de direito romano da Faculdade de Direito da USP, da qual foi diretor (2002-2006).

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