sábado, 2 de julho de 2011

Zózimo

RUY CASTRO

RIO DE JANEIRO - Zózimo Barrozo do Amaral, que teria feito 70 anos em fins de maio, não era bem um colunista social. Quando ganhou uma coluna diária com seu nome no "Jornal do Brasil", em 1969, talvez fosse. Mas bastou-lhe olhar em torno. Com os militares e os novos-ricos no poder, o Brasil era de quem sabia "empunhar um fuzil ou assinar um cheque, mas não segurar um garfo". Para quê coluna social?
Antes dele, os inovadores do gênero tinham sido Ibrahim Sued, com sua obsessão pela nota curta e pelo furo ("Bomba, bomba, bomba!"), e Alvaro Americano, que tomava liberdades com a notícia e a comentava, ambos em "O Globo". Zózimo superou-os em suas especialidades e acrescentou o humor. "Foi o brasileiro que melhor escreveu em três linhas", disse seu sucessor Ancelmo Gois.
Quando queria, não lhe faltavam furos: "Desde o início do governo, nunca foi tão harmonioso o relacionamento dos ministérios da Justiça e da Economia" (em 1990, para insinuar o romance entre Bernardo Cabral e Zélia Cardoso de Mello, ministros do recém-empossado Collor). Ou sua sugestão para o nome da empresa que os investidores Donald Trump e Naji Nahas iam abrir juntos: "Trampolinagem".
E ninguém o batia na frase de efeito: "O problema em Brasília é o tráfico de influência. Já no Rio, é a influência do tráfico". Ou: "Reflexão de uma senhora casada sobre a infidelidade conjugal: "Antes à tarde do que nunca'". Ou: "Boni afirma que vai deixar a Globo daqui a dez anos. É o aviso prévio mais longo da história".
Primeiro no "JB", depois no "Globo", Zózimo foi leitura obrigatória durante 28 anos. Mas, mais que isto, era uma pessoa querida. Em 1997, pouco antes de morrer, aos 56 anos, deixou esta observação sobre a condição masculina: "Depois de uma certa idade, o homem, da cintura para cima, é poesia; da cintura para baixo, prosa".
Folha de São Paulo, 02/07/2011

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