domingo, 3 de julho de 2011

Tentando decifrar o que a China quer

PHILIP STEPHENS


No topo da lista do que os chineses não querem está qualquer forma de desafio a sua integridade territorial


SABEMOS O QUE o Ocidente deseja da China ressurgente. Fazemos ideia do que a China não deseja do Ocidente. O que falta nessa história de reviravoltas geopolíticas mundiais é uma ideia clara quanto ao que a China deseja, com sua ascensão ao status de grande potência.
Como muitos comentaristas europeus e norte-americanos, dedico boa parte do meu tempo a ouvir o que os acadêmicos, funcionários e diplomatas chineses têm a dizer.
Alguns meses atrás, fui testemunha de uma palestra na qual um vice-ministro chinês admitiu que existem divisões na ilustre Escola Central do Partido Comunista quanto ao relacionamento com Washington.
Alguns dos guardiões da ideologia chinesa acreditavam que os Estados Unidos só são capazes de compreender o idioma do poderio bruto. Outros consideram que o interesse chinês dita que exista tanto cooperação como concorrência.
Um importante estudioso declarou, recentemente, que Hu Jintao, que deixará a Presidência da China no ano que vem, era pouco mais que um "pequeno burocrata". O Ocidente se surpreenderá quando a geração de Xi Jinping, o novo presidente, assumir seus postos. São líderes jovens que se formaram na era da Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung, e endureceram por causa dela. Não é provável que hesitem em exercer o poder de que disporão.
Mas há quem discorde. Um conhecido líder empresarial argumenta que o trabalhoso processo que conduz um líder ao topo do sistema chinês torna muito difícil romper radicalmente com o passado. O que fica claro da maioria dessas conversas, porém, é que a admoestação de Deng Xiaoping, no sentido de que a China deveria sempre manter sua força escondida, hoje em dia é respeitada apenas de modo pro forma.
O Ocidente, que na ausência de uma política europeia coordenada para com as potências em ascensão consiste essencialmente dos EUA e do Japão, sabe claramente o que deseja de uma nova China.
O objetivo pode ser resumido em uma frase já desgastada, mas ainda aplicável, cunhada por Robert Zoellick, que conclamou Pequim a se comportar como "um participante interessado e responsável".
Essa posição prevê que a China assuma o lugar que lhe cabe na defesa e no desenvolvimento de uma ordem mundial baseada em regras mutuamente aceitas. Pequim tem razão ao dizer que isso é um conceito ocidental. Ainda assim, os EUA podem apontar para o fato de que criaram e mantiveram a estrutura que permitiu a ascensão chinesa.
As autoridades chinesas não hesitam em expor o que não desejam da parte do Ocidente. No topo da lista está qualquer forma de desafio à integridade territorial chinesa.
Em segundo lugar na lista do que os chineses não desejam está um confronto que venha a perturbar o avanço da prosperidade do país.
Ainda que a China se tenha tornado muito mais ativa do que Deng recomendaria, Pequim está ansiosa para evitar qualquer ruptura internacional que possa ameaçar o crescimento e a ordem social internos.
Um terceiro tabu envolve reprimendas ocidentais com relação à ordem política e social chinesa.
Mas é quando perguntamos sobre as ambições da China quanto ao seu lugar no mundo que seus líderes se tornam inescrutáveis. Sim, a China deseja um papel compatível com sua história. Sim, a ascensão econômica do país expandiu vigorosamente seus interesses estratégicos.
Mas os chineses desejam criar uma ordem internacional diferente?
Até onde o país pretende expandir o alcance de suas forças? Os modelos político e econômico de Pequim são vistos como concorrentes do capitalismo liberal ocidental em um plano mais amplo? São questões que raramente recebem respostas claras.
Pode-se obter algumas respostas por inferência. Uma estratégia de dividir para governar sugere o desejo consciente de aproveitar a atual fraqueza da Europa a fim de solapar as bases da aliança atlântica. Quanto mais a China subir, mais seus interesses se expandirão.
Mas até que ponto essa expansão pode ir? A China não está tentando ocupar a posição hegemônica que os EUA detiveram até recentemente.
Há muitas restrições naturais ao seu poderio. Mas o que sabemos vai só até aí. E suspeito de que o mesmo valha para o que sabem os chineses.

PHILIP STEPHENS é editor-associado do "Financial Times".

Tradução de PAULO MIGLIACCI

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