terça-feira, 5 de julho de 2011

Surdos

VLADIMIR SAFATLE

Há 60 anos morria o maior músico do século 20. Porém ele continua um desconhecido mesmo entre o público letrado das sociedades ocidentais. Seu nome não é estranho, mas suas músicas continuam simplesmente ignoradas.
Pensar atualmente sobre ele é, por isso, uma boa maneira de nos perguntarmos sobre o destino, em nossas sociedades, da própria noção de "experiência estética".
Arnold Schoenberg (1874-1951) foi alguém que viu seu tempo como quem se confronta com um limite. Sua consciência de que a gramática que codifica nossas expressões e que organiza nossos modos de pensar havia se transformado em uma convenção esvaziadora era partilhada por vários artistas de sua época.
É da essência da crítica modernista uma profunda "suspeita pela forma", ou seja, desconfiança de que formas que procuram se passar por naturais são, na verdade, peças de um sistema de imposições violentas. O filósofo francês Jacques Derrida costumava dizer que a pior violência que se pode imaginar é impor ao outro nossa linguagem.
Tudo se passou como se o começo do século 20 tivesse sentido que a linguagem artística tinha se transformado na pior de todas as violências porque era um modo de impor o silêncio àquilo que, no interior de nossa experiência, ainda não encontrara nome.
No entanto, contrariamente àqueles que procuravam denunciar tal imposição por meio do retorno brutal e anárquico ao que parecia recalcado pelo processo civilizatório, Schoenberg encontrou a força de transformar resistência em sistema. Essa era a sua grande peculiaridade: acreditar que a rebeldia não era alérgica ao método e ao rigor.
Abandonar as noções convencionais de harmonia e consonância não implicava pensar sem método e sem regras.
Como quem lembra que a liberdade conquistada não é um antônimo da necessidade.
Assim, Schoenberg criou a imagem de um mundo no qual a expressão mais dilacerada e rebelde não era exterior ao pensamento, mas era a matéria que se deixa moldar pela força organizadora do pensar.
Durante muito tempo, aprendemos que a música era a pátria do descanso do espírito, da imediaticidade do sentir, da espontaneidade pura e melodiosa. Schoenberg nos mostrou uma música na qual o pensar aprendeu a refletir a partir dos sentimentos mais mudos e inomináveis.
Este mundo, infelizmente, ainda não é o nosso. Nosso mundo prefere "esquecer-se" na música, enquanto ele queria uma música que nos fizesse lembrar o que teimamos em querer esquecer.
Quem sabe agora, que aprendemos mais uma vez a desconfiar de nossas formas de vida, a ver as catástrofes que elas produzem, possamos, enfim, começar a ouvir Schoenberg.


VLADIMIR SAFATLE escreve às terças-feiras na Folha de São Paulo

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