domingo, 24 de julho de 2011

A primavera delas

Mulheres árabes retratam a pedido da Folha a situação feminina após revoltas

DIOGO BERCITO
DE SÃO PAULO

Elas estão nas ruas. De cabelo solto ou escondido pelo véu, as mulheres participaram ao lado dos homens dos protestos que derrubaram ditadores no Egito e na Tunísia.
E é na rua que elas devem seguir, manifestando-se, para garantir que a Primavera Árabe -que está completando seis meses- ajude-as a conquistar seus direitos.
"Podemos ter a impressão de que as revoltas representam avanços para as mulheres, mas isso depende do sistema político que virá", diz à Folha Adel Abdellatif, chefe do programa de desenvolvimento da ONU no escritório regional para países árabes. "No caso do Iraque, a invasão americana não deu poderes às mulheres", exemplifica. "A questão é se elas terão voz na hora de escrever as novas Constituições."
A egípcia Fatemah Khafagy, da ONG Alliance for Arab Women, concorda -e aponta que o momento é propício para progressos, mas também traz o risco de retrocessos.
A ativista teme que, com a ascensão de grupos radicais islâmicos, as mulheres percam direitos na região. "A junta militar quer revisar leis sobre o casamento e a guarda de filhos", diz. "Eles alegam que foram aprovadas por um governo corrupto."
Para Khafagy, a participação política tem de ser, por enquanto, a prioridade da luta das mulheres na região.
"A mutilação genital [problema grave no Egito] não é o nosso foco agora. Se não formos representadas politicamente, não conseguiremos garantir os outros direitos."
As violações às mulheres variam conforme a região, com Tunísia e Egito como exemplo de avanços e a Arábia Saudita, de retrocessos. A luta, para Abdellatif, não está no uso ou não do véu, "mas em direito ao trabalho, igualdade na família, acesso a serviços públicos", afirma.
Arlene Clemesha, coordenadora do Centro de Estudos Árabes da USP, soma a divisão de tarefas domésticas e a escolha do marido à lista. As mudanças, diz, têm de vir de dentro, e não ser impostas.
"Pensam que as mulheres têm de ser defendidas. Mas o que elas precisam é de solidariedade para poderem se proteger sozinhas", diz. "A situação das mulheres serve para justificar intervenções."
A opinião dá pistas sobre a demora dos EUA em criticar o governo da Arábia Saudita, onde, em junho, mulheres foram presas por dirigir.
"Eles não podem reclamar, por causa do nosso petróleo", diz o saudita Zaki Safar, organizador do movimento Women2Drive -que organiza manifestações pelo país.
A entidade pediu publicamente que Hillary Clinton, secretária de Estado dos EUA, se pronunciasse a favor das mulheres sauditas. Ela levou semanas para isso.
"Não acho que foi sincero", diz Safar. "Além de ter sido inútil, porque ela só se posicionou quando não tinha nada a perder -ao contrário de nossas mulheres, que foram presas."

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