segunda-feira, 11 de julho de 2011

A nova "ecãonomia" chinesa

JAIME SPITZCOVSKY


Na China pós-Mao, querem até tornar o melhor amigo do homem o novo melhor amigo dos investidores


OS CÃES entraram também na pulverização do capitalismo brasileiro. Hoje, não dá mais para definir a renda do consumidor usando, como guia, a raça do seu animal de estimação. Já se foram os tempos em que um trêmulo chihuahua na bolsa ou um imponente doberman no portão evidenciavam status.
Nos últimos anos, o aumento do poder aquisitivo da população e a indústria de filhotes, com canis irresponsáveis despejando ninhadas a todo vapor, turvaram o cenário, ainda mais com a valorização das adoções e dos vira-latas.
Porém, em outras paragens, a história é diferente. Novos ricos chineses fazem dos seus cães de raça um símbolo de status comparável a rodar em carros alemães ou a vestir grifes francesas.
A explosão do capitalismo na China, ainda que patrocinada pelo Partido Comunista, desatou uma corrida por hábitos até pouco tempo atrás execrados pelo regime.
Antigamente, a conversa sobre a combinação China-cachorro costumava descambar para a culinária. O que para mim é versão de "canibalismo", para muitos chineses é uma tradicional iguaria, o ensopado de carne canina.
Logo ao chegar a Pequim, em 1994, para trabalhar como correspondente desta Folha, invadi um supermercado ansioso por desvendar minhas novas alternativas de consumo.
Latas enfileiradas numa prateleira apresentavam rótulo com a simpática foto de um cachorro. Descobri em seguida que não se tratava de comida para cães, mas de carne canina para consumo humano. E de forma bem prática, devo admitir.
Os cães já passaram de alvo gastronômico a alvo ideológico.
Foram literalmente perseguidos na ortodoxia comunista de Mao Tse-tung, identificados, a partir de 1949, como perigosos agentes de costumes burgueses. Só com a morte do Grande Timoneiro, em 1976, a situação se afrouxou.
Passada a histeria maoísta, Deng Xiaoping assumiu as rédeas e introduziu em 1978 a maior revolução capitalista da história. Amantes dos cães no país do pequinês voltaram a respirar aliviados. Dizem até que o sucessor de Mao mantinha, discretamente, dois pequenos cachorros.
Hoje, os cães de raça encarnam status na China de um Partido Comunista que convive com recuperados "hábitos burgueses", mas, sem abrir mão de velhos vícios, se delicia na hora de impor controles e chega até a cobrar taxas pela propriedade de caninos.
Enquanto Pequim, centro do poder e capital, chegou a banir cães maiores, Xangai, a luminosa metrópole cada vez mais com jeito de Nova York, que decretou o limite de um cão por casa.
Recentemente, noticiou-se que o cão mais caro do mundo foi vendido na terra de Mao Tse-tung. O recordista, um filhote de mastiff tibetano, custou cerca de R$ 2,2 milhões, adquirido por um dos novos milionários chineses, descrito como empresário da área de mineração.
Sinal dos tempos, o comprador não sinalizou interesse em transformar o tesouro canino em ensopado ou em vítima de perseguição ideológica, mas num reprodutor capaz de gerar lucros avantajados. Na China pós-Mao, querem até transformar o melhor amigo do homem no melhor amigo do investidor.

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