quarta-feira, 20 de julho de 2011

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Escândalo desencadeado por escutas ilegais abala império de mídia de Rupert Murdoch e já ameaça até governo do conservador David Cameron

Com impacto digno da cultura sensacionalista dos jornais tabloides britânicos, o escândalo que causou o desaparecimento de um dos mais bem-sucedidos entre eles, o "News of the World", não para de produzir estragos.
O caso ganhou repercussão mundial quando veio a público que as práticas criminosas empregadas por jornalistas incluíram a invasão da caixa postal telefônica de uma adolescente assassinada. Nos últimos dias, evoluiu para um tsunami político, que arrasta jornalistas e autoridades envolvidos nos malfeitos e ameaça derrubar muitos outros no canal de promiscuidade entre parte da imprensa sensacionalista e a cúpula do governo conservador.
O chefe da Scotland Yard foi obrigado a renunciar, assim como um de seus assistentes. Não resistiram à revelação de que um executivo do "News of the World" (NoW) havia sido contratado para assessorar a polícia, quando já se sabia das práticas ilegais que reinavam no tabloide.
Alguns dos principais executivos da News Corporation, de Rupert Murdoch, também foram abatidos pelo escândalo. Rebekah Brooks, ex-editora-chefe do jornal e diretora-executiva do braço britânico da corporação, pediu demissão. Chegou a ser presa e, depois, foi solta sob fiança.
O próprio Murdoch, temido por influir nos rumos da política britânica, viu sua participação nas empresas perder US$ 1 bilhão de valor no mercado e teve de depor no Parlamento. Pediu desculpas e acabou agredido com uma "torta" de espuma de barbear. "É o dia mais humilde da minha vida."
A principal incógnita é o impacto do escândalo sobre a carreira do primeiro-ministro conservador David Cameron. Ele contratou como assessor Andy Coulson, ex-editor-chefe do "NoW" derrubado meses antes pelo caso das escutas. Eleito em maio de 2010, o premiê chamou Coulson para chefiar a comunicação de seu gabinete, num gesto interpretado como retribuição ao apoio recebido dos jornais de Murdoch.
Se a cúpula da polícia caiu por contratar um subordinado de Coulson, argumenta a oposição trabalhista, por que Cameron, que levou para a sede do governo uma das figuras centrais do caso, deveria permanecer no seu cargo?
Seria imprudente, nesta altura, vaticinar o fim do governo conservador, no poder há 14 meses, após mais de uma década de hegemonia trabalhista no Reino Unido.
Certo é que o escândalo trouxe à luz uma rede estreita de relações espúrias entre polícia, mídia e poder, a exigir uma profunda revisão institucional dessas atitudes.

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