quarta-feira, 27 de julho de 2011

Mistura de menos

FERNANDO DE BARROS E SILVA

SÃO PAULO - Diante da atrocidade que foi capaz de cometer, as idiotices que o psicopata norueguês diz sobre o Brasil são só um detalhe.
No manifesto que publicou, o assassino atribui à miscigenação a desigualdade social e os "altos níveis de corrupção" do país. Diz que a mistura de raças impede a coesão interna e transforma o Brasil numa nação de segunda classe. As "subtribos" nos impediriam de alcançar o "grau de produtividade e harmonia" verificados na Escandinávia, na Alemanha, no Japão.
Já foi dito que a cabeça deste fascista é, também, a expressão de uma demência coletiva de extrema direita que vem ganhando certo relevo social e político na Europa.
Sem desconhecer que este é o xis dessa questão, ficarei hoje no Brasil. O problema é que somos miscigenados de menos, e não demais. Ou melhor: a miscigenação brasileira convive com uma enorme desigualdade racial -e ambas as coisas nos definem como sociedade.
Entre os 10% mais ricos da população, há 78% de brancos e 20% de pretos e pardos -praticamente 4 para 1. Entre os 10% mais pobres, há 27% de brancos e 73% de pretos e pardos -1 branco para cada 3 negros. São dados do "Relatório das Desigualdades Raciais no Brasil (2007-08)", coordenado pelo professor Marcelo Paixão, da UFRJ.
Há mais de dois pretos ou pardos analfabetos para cada branco analfabeto no país. Qualquer indicador social reflete essa segregação dentro da miscigenação. A desigualdade entre nós tem cor -herança perversa de séculos de escravidão, ainda muito longe de ser superada.
Ao mesmo tempo em que produz delícias e maravilhas, a civilização mestiça mitiga a dinâmica da Casa-Grande & Senzala, ainda tão decisiva nas relações cotidianas do país.
"Madame diz que a raça não melhora/ que a vida piora/ por causa do samba", canta João Gilberto. Não vamos discutir com o fascista. Mas ainda precisamos muito discutir com madame para democratizar a boa mistura brasileira

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