quinta-feira, 7 de julho de 2011

Milly Dowler

KENNETH MAXWELL

Em 23 de junho de 2011, a Alta Corte de Londres condenou Levi Bellfield, ex-segurança de uma casa noturna, pelo sequestro e assassinato da estudante Milly Dowler, 13, em 2002. O caso foi muito demorado e traumático, e Bellfield já estava cumprindo sentença de prisão por dois outros homicídios.
O veredicto sobre Milly Dowler, no entanto, serviu para expor uma situação caótica e nada bonita.
Os excessos dos jornais sensacionalistas britânicos, as atividades clandestinas e ilegais dos responsáveis por escutas telefônicas empregadas pelo jornal "News of the World", de Rupert Murdoch, os interesses coincidentes dos políticos e das grandes empresas de mídia, o crônico desrespeito pelos direitos das vítimas no sistema judicial britânico e a relação incestuosa e ocasionalmente corrupta entre a imprensa e os investigadores policiais da Scotland Yard colidiram. Nenhum dos envolvidos emergiu da situação com muito crédito.
O "News of the World" já havia admitido escutas telefônicas ilegais nos celulares de celebridades, astros do esporte e membros da família real.
Um repórter e um detetive particular empregado pelo jornal foram condenados e estão presos. Mas o caso de Milly Dowler demonstrou que havia muito mais em jogo que a reles busca de fofocas sobre celebridades. O caso deu face muito humana a toda a questão.
Os pais e a irmã de Milly protestaram ao final de um julgamento doloroso, no qual se sentiram forçados a revelar detalhes sobre suas inclinações sexuais e no qual foi sugerido que Milly havia fugido de casa por ser infeliz. O réu no processo não depôs.
A mais chocante revelação, no entanto, veio nesta semana, quando o jornal londrino "The Guardian" revelou que o "News of the World" tinha uma escuta no celular de Milly em 2002, nos seis meses que antecederam a localização de seu corpo.
Algumas das mensagens haviam sido apagadas, o que levou a polícia e seus pais a acreditarem que ela ainda estivesse viva. O advogado da família Dowler declarou que essas revelações são "abomináveis" e "vis".
A editora do "News of the World" na época era Rebekah Brooks, hoje presidente-executiva da News International, a divisão britânica do império internacional de mídia de Murdoch, que no momento está concluindo a aquisição total do serviço de TV via satélite britânico BSkyB.
Os celulares dos pais de outras crianças assassinadas aparentemente também foram alvos de escuta pelo "News of the World".
Ontem, a Casa dos Comuns do Parlamento britânico realizou um debate de emergência. Esse não é um assunto que será esquecido rapidamente.


KENNETH MAXWELL escreve às quintas-feiras nesta coluna.

Tradução de PAULO MIGLIACCI


Folha de São Paulo, 07/07/2011

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