segunda-feira, 18 de julho de 2011

Kasparov defende boicote contra eleições na Rússia

ENTREVISTA DA 2ª GARRY KASPAROV
CAMPEÃO DE XADREZ FOI CANDIDATO À PRESIDÊNCIA DO PAÍS NO ÚLTIMO PLEITO, MAS DESISTIU DEPOIS DE SER PRESO; ELE ACUSA O PREMIÊ VLADIMIR PUTIN DE COMANDAR UM "ESTADO-MÁFIA"

ELEONORA DE LUCENA
DE SÃO PAULO

A Rússia virou um Estado mafioso, a economia está em colapso, não há democracia e só a oligarquia comandada por Vladimir Putin ganha. O diagnóstico é do célebre campeão de xadrez Garry Kasparov, 48, que defende o boicote às eleições do ano que vem.
No último pleito, ele se candidatou à Presidência, foi detido e acabou abandonando o processo. Nesta entrevista, ele fala de política e de xadrez. E faz duros ataques a Putin. "Mesmo a Venezuela de Chávez é muito mais livre que a Rússia hoje", afirma.
Kasparov estará no Brasil para uma palestra em 5 de setembro no seminário internacional Fronteiras do Pensamento, em Porto Alegre.



Folha - Como está a situação política e econômica na Rússia hoje?
Garry Kasparov
- A primeira, não existente. A segunda, desastrosa. Política, como entendida numa democracia, não existe na Rússia. É um Estado-máfia. Putin é o chefe dos chefes. Ele e seus oligarcas comandam os setores privado e público.
A economia está em colapso, apesar dos altos preços do petróleo. Não há investimentos, só retirada de lucros. Quando Putin assumiu, a economia estava crescendo com o preço do petróleo abaixo dos U$ 20 o barril. Hoje está a U$ 100, e a economia está em colapso. A antiga infraestrutura soviética foi explorada até o mais amargo fim e desabou.

As condições sociais hoje são piores do que no tempo soviético?
A URSS ruiu há 20 anos, e eu não sou nostálgico. O comunismo era uma ideologia completamente falida, e não há razão para saudade. Exceção, talvez, para o apoio estatal ao xadrez. Acredito em povos e mercados livres. Desigualdade é inevitável no capitalismo, mas ao menos há oportunidades, que não existiam sob o comunismo.
Infelizmente, o que existe na Rússia hoje não é livre mercado. É um jogo manipulado por Putin e sua gangue. As condições sociais pioraram dramaticamente nos últimos 11 anos sob Putin. Um terço dos russos da classe média sairiam do país se pudessem.

É correto dizer que, após o fim do comunismo e com a privatização do patrimônio estatal, a Rússia virou uma terra controlada por grupos mafiosos?
Mais parecida com o Velho Oeste do que com a Sicília. Era um novo ambiente, com poucas regras e ninguém capaz de fazer valer as regras existentes. Vários centros de poder se formaram dentro do governo, fora dele e misturados. Foi caótico, mas havia esperança de democracia e liberdade de expressão. Putin rapidamente consolidou seu poder e chutou aqueles que não eram 100% leais a ele.

O que o sr. acha do [presidente russo,] Dmitri Medvedev?
Até agora é um homem sem definição. É apenas uma sombra de Putin. O único interesse de Putin é o dinheiro e assegurar o poder político para garantir esse dinheiro.
Como foi a experiência de ser preso na campanha eleitoral? Quem são seus financiadores?
A prisão não traz uma boa memória, mas muitos de meus colegas estão passando muito mais tempo na prisão. A lista de prisioneiros políticos na Rússia cresce. Minha campanha foi bloqueada muito cedo. Quando as eleições ocorreram, o regime já tinha eliminado qualquer oposição verdadeira na mídia e nas cédulas de votação. Por isso sou hoje a favor de um boicote total a essas eleições vergonhosas.

O sr. não vai se candidatar para as próximas eleições?
Não use a palavra eleição. É um insulto ao meu intelecto e vai confundir os leitores. Não há eleições para concorrer. Essas não são eleições. São shows para entretenimento doméstico e externo. Mesmo a Venezuela de [Hugo] Chávez é muito mais livre do que a Rússia hoje.

Como o sr. se define politicamente?
Sou chamado de liberal na Rússia porque sou aberto à democratização e à democracia. No Ocidente, eu seria considerado conservador ou até libertário. Em países como a Rússia e o Brasil, há responsabilidades sociais que não podem ser ignoradas pelo Estado.
Por ter experimentado o comunismo totalitário, e agora uma ditadura oligárquica, prefiro um Estado tão pequeno quanto possível.

Como um ex-membro do partido comunista, como o sr. define o comunismo hoje?
Sim, fui membro do partido porque eu era um jovem ambicioso e acreditava que ser membro era necessário para o avanço de minha carreira como enxadrista. Mas eu nunca fui um comunista.

A Rússia deveria ter uma relação mais próxima com os EUA, a China ou a Alemanha?
Não há razão para ter favoritos. Eu preferiria uma parceria com nações como os EUA e Europa. Putin está virando a Rússia num Petroestado e está feliz em transformar o país num gigantesco posto de petróleo e fornecedor de recursos naturais para a China e o resto do mundo.

O sr. ainda joga xadrez? Com que frequência? Ainda gosta?
Eu não jogo mais xadrez de forma competitiva desde a minha aposentadoria, em 2005. O xadrez será sempre uma enorme parte da minha vida, e eu estou envolvido em uma série de atividades relacionadas a ele. Muitos estudantes provaram os benefícios do xadrez para crianças, desde a melhora nas capacidades de concentração e paciência até o desempenho acadêmico.
Pessoalmente, ainda jogo partidas rápidas na internet regularmente. Não é a mesma coisa, mas mantém o sangue fluindo.

Quem o sr. gostaria de desafiar para uma partida?
Estou aposentado. Talvez em meus sonhos eu imagine revanches contra Deep Blue [computador] e contra Vladimir Kramnik.

Quando perdeu o jogo para o computador Deep Blue, da IBM, o sr. disse que tinha sido uma fraude. Ainda pensa isso?
Havia coisas sobre a partida que não podiam ser explicadas por mim e não foram explicadas pela equipe do Deep Blue. Eu era, eu sou muito competitivo e queria desesperadamente uma revanche. Ganhei a primeira partida, e eles ganharam a segunda. Por que não uma partida de desempate? Quando, em vez disso, eles rapidamente desmontaram o Deep Blue, eu fiquei chocado e furioso.

Qual foi a sua pior derrota como jogador?
Quando perdi o título de campeão mundial para Kramnik em Londres em 2000. Eu fui para o jogo superconfiante e paguei o preço. Kramnik estava maravilhosamente preparado, e eu não pude me adaptar em tempo.

E a vitória mais importante?
Tornar-me campeão mundial contra Anatoly Karpov, em 1985, quando eu tinha 22 anos, claro. Ganhar o jogo final da série contra Karpov, em 1987, para empatar a série e manter o título de campeão mundial foi a partida mais dramática e crítica.

O sr. se arrepende de algum movimento em algum jogo?
Se você gasta tempo se arrependendo de movimentos, você só faz mais erros. Gaste essa energia em análises e tente entender porque você fez o erro, em vez de se castigar por ter errado.

Qual o resultado da fusão entre política e xadrez?
Uma vida analisando suas próprias decisões é útil em qualquer terreno. Você tem que pensar no longo prazo, não só no momento. Mas ser um grande jogador de xadrez não necessariamente significa que você vai ser ótimo em qualquer outra coisa. Você precisa constantemente desenvolver você mesmo.

Como é a prática do xadrez hoje na Rússia?
O xadrez é ainda popular, mas há pouco apoio para o jogo na Rússia atualmente. Não é coincidência que os jovens destaques do xadrez venham de outros países. O regime de Putin despreza o intelecto. O xadrez, assim como a educação e as ciências, sofre com o resultado.

Como o sr. vive hoje? É rico? Para que companhias trabalha e quanto ganha?
Seguramente nunca farei parte do grupo dos amigos de Putin que está na lista dos bilionários da "Forbes". Sustento minha família e minhas atividades de direitos humanos escrevendo e dando palestras pelo mundo.

Nenhum comentário: