quarta-feira, 6 de julho de 2011

A GUERRA SCHINDLER

Herdeira argentina tenta impedir leilão de documento histórico do Holocausto, que tem um de seus originais ofertado em site dos EUA

LUCAS FERRAZ
DE BUENOS AIRES

Virou briga na Justiça o leilão de um original da lista de Schindler, documento da Segunda Guerra Mundial (1939-45) com o nome de 1.200 judeus salvos do Holocausto.
Produzida pelo casal Oskar e Emilie Schindler, a lista é oferecida por US$ 3 milhões (R$ 4,6 milhões) no site americano www.momentsintime.com. A argentina Erika Rosenberg, uma das cinco herdeiras de Emilie, tenta impedir a venda.
"Oskar e Emilie morreram pobres, e queriam que esses documentos fossem para museus. É triste ver a lista sendo comercializada por milhões. A briga não é por dinheiro, é por justiça histórica", disse ela à Folha.
O Yad Vashem, memorial do Holocausto em Israel, defende que "documentos relativos ao massacre dos judeus, que têm valor moral e histórico, não devam ser comercializados". O vendedor é o colecionador americano Gary Zimet. Segundo ele diz na internet, "a única lista de Schindler à venda" pertenceu a Itzhak Stern, contador que trabalhou para Schindler. Stern morreu em Israel, em 1969.
O leilão chegou a ser suspenso por alguns meses no ano passado por causa de uma ação da herdeira na Justiça de Nova York, mas Erika, 60, perdeu a primeira batalha nos tribunais.
Agora, para tentar impedir a venda, seu advogado, Fernando Koatz, estuda recorrer a um tribunal internacional.
A Folha não conseguiu contato com Zimet em seu escritório em Nova York. Ele também não respondeu e-mail enviado pela reportagem. A lista segue ofertada no site da "Moments in Time".
Filha de alemães que fugiram para a Argentina na década de 1940, Erika conheceu Emilie Schindler nos anos 1990, em Buenos Aires.
Os Schindler se mudaram para a cidade, saindo da Alemanha, em 1949.
Oskar se separou de Emilie e retornou em 1957 à Alemanha, onde morreu em 1974. Emilie continuou vivendo na Argentina, até meses antes de sua morte, em 2001, na Alemanha. Sem filhos, ela escolheu Erika como uma de suas herdeiras.
Erika suspeita que a lista leiloada por Zimet possa ter sido extraviada dos arquivos do Yad Vashem.
Ela disse ter pedido informações ao museu, mas não recebeu resposta.
À Folha, o Yad Vashem afirmou: "[As listas] estão em exibição on-line e no museu da história do Holocausto, onde milhões de pessoas podem vê-las anualmente. Como documento de valor histórico, a preservação das listas garante para as próximas gerações as evidências do Holocausto".
Estima-se que 6 milhões de judeus tenham sido mortos no Holocausto. Os Schindler elaboraram a lista em duas ocasiões: uma em agosto de 1944 e outra em abril de 1945.
Sua história inspirou "A Lista de Schindler" (1993), longa de Steven Spielberg que foi sucesso mundial e venceu sete Oscars.


Colaborou MARCELO NINIO, de Jerusalém

Folha de São Paulo, 06/07/2011

Um comentário:

Marco Antonio de Cádiz disse...

O meu sentir diz que a "Lista de Schindler" pertence à Humanidade, portanto, a quem teve acesso àquele documento - licitamente.