quinta-feira, 28 de julho de 2011

A esfinge peruana

Editoriais
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A transição do peruano Ollanta Humala do esquerdismo chavista para o pragmatismo lulista só poderá ser confirmada com o tempo. Mas tudo indica, até agora, que sua conversão é verdadeira.
O sinal mais saliente vem do gabinete escolhido por Humala para governar o Peru a partir de hoje. O economista Julio Velarde, um liberal, foi mantido à frente do Banco Central. O atual vice-ministro de Finanças, Luis Miguel Castilla, assumirá o comando da pasta.
À esquerda couberam os ministérios das Relações Exteriores, da Educação e da Cultura. Tal divisão espelha o equilíbrio que Humala precisará demonstrar no governo.
A economia teve o melhor desempenho da América do Sul em cinco anos. Nos primeiros meses de 2011, crescia à taxa anualizada de 8%. Mas há insatisfação nas camadas mais pobres, menos beneficiadas pelo "milagre".
Questões ambientais, como a construção de hidrelétricas na selva, também levam água ao moinho da insatisfação.
O novo presidente sofreu brutal queda de popularidade desde a eleição, de 70% para 41%. Um de seus irmãos, empresário, viajou à Rússia, onde se apresentava como seu "enviado especial". Ollanta Humala negou a missão, mas os russos confirmaram que receberam Alexis Humala em tal condição. Sob a suspeita de tráfico de influência, a avaliação do presidente se assemelha à de Alan García ao assumir em 2006, de 45%.
O resultado da eleição -sua adversária no segundo turno, Keiko Fujimori, teve 48,5% dos votos- e a divisão do Congresso ajudam a empurrar Humala para o centro. Seu partido tem apenas 47 de 130 cadeiras. Mesmo com os prometidos 21 votos dos aliados do ex-presidente Alejandro Toledo, sua maioria parece um tanto frágil.
Humala prometeu, na campanha eleitoral, emular a estratégia de Luiz Inácio Lula da Silva: ortodoxia na área econômica e ampliação dos benefícios sociais. O cenário na Venezuela de Hugo Chávez, com inflação alta e crescimento pífio, reforça a tendência a afastar-se do antigo mentor.
O novo presidente caminhou bem até a posse. Terá agora de provar, no governo de cada dia, sua capacidade de contemplar tanto as demandas sociais quanto as do crescimento econômico.

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