sexta-feira, 1 de julho de 2011

Escândalo na praça

Supeita de corrupção atinge a associação argentina Mães de Maio e leva o país vizinho a questionar um de seus ícones na defesa dos direitos humanos

LUCAS FERRAZ
DE BUENOS AIRES

SYLVIA COLOMBO
DE SÃO PAULO

O escândalo de corrupção que envolve a Associação das Mães da Praça de Maio e as polêmicas atitudes de sua líder, Hebe de Bonafini, colocaram em questionamento uma das mais célebres instituições de direitos humanos da Argentina.
O esquema de desvio de recursos públicos que seriam utilizados para a construção de casas populares, comandado por um braço direito de Bonafini, evidenciou como a organização perdeu o discurso após ser cooptado pelo governo Kirchner.
Os irmãos Sérgio e Pablo Schoklender, praticamente adotados por Bonafini, eram responsáveis por administrar um fundo de US$ 300 milhões (R$ 474 milhões) repassados pela Casa Rosada.
Nas últimas semanas, a sociedade argentina descobriu acusações de que desviaram parte desses recursos para bancar um luxuoso patrimônio de carros importados, iates, aviões e vários imóveis. Hebe de Bonafini, 82, é a outra faceta do episódio. Controversa por elogiar o atentado de 11 de setembro de 2001 e defender grupos terroristas, ela diz ter sido enganada pelos irmãos, condenados por matar os pais em 1981.
A Associação das Mães da Praça de Maio, que surgiu em abril de 1977, no auge da brutalidade da ditadura argentina (76-83), para cobrar informações sobre os mais de 30 mil mortos e desaparecidos, hoje se divide em três grupos.
Brigas políticas levaram a duas cisões. Em 1978, Estela de Carlotto saiu para fundar as Avós da Praça de Maio, cujo trabalho é voltado para identificar bebês sequestrados pelos militares.
Em 1986, Nora Cortiñas deixou o grupo para fundar as Mães da Praça de Maio da Linha Fundadora. "Além do autoritarismo, temos diferenças políticas e linguagens distintas", disse Nora Cortiñas, 81, sobre Bonafini.

VESTAL CORROMPIDA
O grupo tenta encontrar os restos dos desaparecidos, papel que as Mães da Praça de Maio rechaçam -dizem que o mais importante é manter viva a luta dos filhos por uma sociedade igualitária.
"As organizações de direitos humanos precisam de independência. Os governos passam, e há muitas violações sendo praticadas por governos constitucionais", ressalta Nora.
Para o Nobel da Paz argentino Adolfo Pérez Esquivel, o escândalo não prejudica a imagem das Mães e o caso deve ser tratado como um problema pontual.
"Trata-se de uma questão jurídica, a Justiça vai ter de julgar as responsabilidades de cada um, inclusive do governo. Não se pode contestar a luta pelos direitos humanos por causa desse problema."
Há, porém, os que pensam que o episódio serve para uma reflexão mais ampla sobre o papel das Mães hoje.
É o caso do historiador Luis Alberto Romero. Para ele, houve um processo de transformação em seu perfil que merecia ter tido uma contestação por parte da população.
Romero argumenta que Bonafini conseguiu convencer parte da opinião pública de que os desaparecidos não eram apenas vítimas, mas também "militantes".
Ou seja, "não só sua causa era digna como também seus métodos, o que ao final terminaria por justificar ações terroristas ainda hoje. Não posso explicar como Bonafini e as Mães chegaram a esse ponto sem serem duramente repreendidas".
O historiador também vê problemas no modo como o governo de Néstor Kirchner (morto no ano passado) cooptou as Mães -política seguida por sua mulher, Cristina, atual mandatária. "O governo corrompeu a vestal do templo e a converteu em simples mortal".
"O caso Schoklender atinge diretamente a liderança de Bonafini, que é muito personalista e autoritária, mas não atinge todas as Mães", comenta o jornalista argentino Jorge Lanata.
Sérgio Schoklender é investigado sob acusação de enriquecimento ilícito, lavagem de dinheiro, desvio de recursos públicos e associação ilícita. Seu irmão e outras sete pessoas também são alvos da Justiça.
O suspeito patrimônio dos irmãos Schoklender começou a ser revelado no final de maio. O centro dos desvios é o programa Sonhos Compartilhados, criado pela associação em 2006 para atuar junto ao governo Kirchner.
Folha de São Paulo, 01/07/2011

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