quarta-feira, 13 de julho de 2011

Elite chinesa 'compra' cidadania estrangeira

Chineses de alta renda investem pelo menos US$ 500 mil para obter residência em países como EUA ou Austrália

Com menos recursos, mães de classe média no país pagam milhares de dólares para ter seus filhos em Hong Kong


David Gray - 13.out.2010/Reuters
Yao Ming, estrela chinesa da NBA, se aquece para jogo do Houston Rockets; cidadania de sua filha provocou polêmica

FABIANO MAISONNAVE
DE PEQUIM

"Nos anos 1970, 1980, emigrávamos para ganhar dinheiro trabalhando em restaurantes. Agora, emigramos para ter uma vida mais relaxada e pôr o dinheiro num lugar seguro", diz o diretor de imobiliária David Yang sobre chineses que -como ele- adquiriram casa na Austrália.
Há dez anos, quando foi à Austrália estudar computação, Yang (nome fictício) diz que não havia tantos chineses. "Hoje, várias cidades têm sua Chinatown", diz. Sua imobiliária, internacional, criou uma seção em Pequim só para atender interessados em imóveis na Austrália.
Números corroboram a impressão de Yang. Pesquisa de abril da consultoria americana Bain & Company mostra que 10% dos chineses mais ricos já fizeram o investimento de imigração -quando um estrangeiro obtém residência temporária ou permanente em troca de alto aporte.
O levantamento, feito com 2.600 chineses de renda alta, mostra ainda que cerca de 50% estão avaliando a possibilidade ou já decidiram, mas não entraram com o pedido.
Os motivos que mais levam os chineses a buscar outros países, diz o estudo, são melhor educação para os filhos (58%), proteger o patrimônio (43%) e mais qualidade de vida na aposentadoria (32%).
Para Yang, que lida diariamente com chineses de alta renda, eles "não estão dispostos a melhorar a qualidade de vida na China". "Querem desfrutar o céu azul", afirma, em alusão à péssima qualidade do ar das cidades chinesas. Já os investimentos na Austrália, diz, dão uma proteção jurídica inexistente na China. "Lá, a propriedade é segura e para sempre. Aqui, depende do Partido Comunista."
Austrália, Canadá e EUA têm registrado um crescimento de chineses se candidatando à imigração de investimento, tirando recursos e mão de obra capacitada da segunda maior economia do mundo.
Nos EUA, dados oficiais mostram que foram aprovados 1.971 imigrantes investidores chineses em 2009, alta de 43% em relação a 2008. Cada um deles teve de aportar pelo menos US$ 500 mil.
Para quem não tem recursos suficientes, a opção é o "turismo de maternidade": chinesas grávidas que viajam aos EUA ou a Hong Kong para dar à luz e garantir outra nacionalidade para o filho.
Não há números oficiais nos EUA, mas os anúncios de agências na China e o recente fechamento de casas na Califórnia que recebiam dezenas de chinesas grávidas - que pagam US$ 20 mil pelo serviço- mostram que a prática está disseminada. Pela lei americana, criança nascida no país é automaticamente cidadã, e os pais podem tirar a residência permanente quando o filho tiver 21 anos.
Outra opção é Hong Kong, que emite passaporte diferente e terá um regime democrático pelo menos até 2047; 45% dos 88 mil nascidos em Hong Kong em 2010 são de mães da China continental.
Sob a condição de anonimato, uma mulher de classe média de Pequim que pagou US$ 10,3 mil para ter o filho em Hong Kong disse que as vantagens são principalmente nas chances de educação.
Outros atrativos são a possibilidade de conhecer o sexo do filho antes do nascimento (o que é proibido na China), a ausência da Política do Filho Único e o passaporte aceito sem exigência de visto em dezenas de países.

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